A Cidadania e a intentona (final): O D de desprezo, o h de horror e o i de insensatez.

Adhemar Bahadian*

Quando comecei a escrever esta série de artigos subordinada à ideia
geral de cidadania e intentona não imaginava minha tarefa seria
imensamente facilitada pelo Presidente dos Estados Unidos da América. A
intentona de Trump contra o Congresso americano, transmitida a cores para
todos os televisores do planeta, fracassou após alguma horas em que a
insensatez de Donald se revelou pelo odor de tumor lancetado.
Embora seja imprevisível o destino político de Trump, a intentona
fracassada ficará na história dos Estados Unidos como data em que os
salões do Capitólio foram estuprados por tropas bárbaras a gritar “
enforquem o Vice- Presidente” “matem a líder do Congresso” . E não
estávamos nas terras de Idi Amim Dada. Era Washington DC.
Donald em quatro anos fez renascer o ódio racial, mal ou bem
serenado desde os anos de Lyndon Johnson. De repente, voltam aos lares
americanos as cenas de macarthismo, da John Birch Society e do Ku Klux
Klan. Trump fez a America ser grande de novo pelo ódio, pelo apelo à
Guerra Civil .E, sempre a se isentar de responsabilidade diante dos que lhe
cobravam equilíbrio de Estadista, evadia-se em mentiras tão obviamente

esfarrapadas como se a ignorância de seu povo tivesse a mesma dimensão
de sua psicopatia. Vimos o filme e imediatamente tivemos receio de que,
mal dublado, reprisasse nas telas do Brasil.
Não há de ser por falta de incentivo da parte de nosso
Presidente, ele também admirador embevecido de Donald, de seus métodos
e de seus esgares, embora longe de seu talento oratório e de seu carisma.
Não lhe faltam porem, a insensatez endógena e o autoritarismo genético.

Trump pretende regredir a nação americana aos tempos da
segregação racial e da supremacia branca. Aqui se pretende reinstalar a
sociedade escravocrata e patrimonial que plasmou nossa história desde a
colonização. Voltar à harmonia da Casa Grande e Senzala . Os propósitos
são idênticos e o desrespeito às instituições democráticas claramente
similares.
Não falo de hipóteses, infelizmente. Já ouvimos reiteradas
vezes e reiteradas vezes assistimos a mesma estratégia de dividir o país em
segmentos inconciliáveis na inédita expansão de armas entre cidadãos
como justificativa a um confronto sangrento a se avizinhar.

Felizmente, parcela substancial da imprensa, e nela
comentaristas políticos insuspeitos de vinculações a ideologias totalitárias
sejam de esquerda ou de direita, já se pronunciam de forma contundente
sobre os riscos à democracia brasileira e ao Estado Democrático de Direito.

A mortandade expansionista da Peste, minimizada pelo
discurso governamental, se aprofunda pela imprevidência criminosa no
atraso da vacinação maciça da população, sempre adiada ora pela declarada
descrença do governo sobre a eficácia de vacinas ou pela absurda
indiferença diante dos esforços universais pelo combate ao vírus.
O Congresso nacional, o Supremo Tribunal Federal parecem
igualmente preocupados com a temeridade das atitudes governamentais
diante da Peste, sem que efetivamente consigam reverter as insanidades
diárias a transformar cidades brasileiras em enfermarias a céu aberto onde
adultos e crianças morrem asfixiadas por falta de planejamento logístico e
sobretudo de solidariedade humana. Fotografias de uma Manaus devastada
correm o mundo como exemplo de incúria governamental. A Venezuela, tão
recriminada e excomungada por nossas autoridades, nos recorda uma
singela lição de solidariedade regional. Alguém tem notícia de Guaidó ?
A derrota eleitoral de Trump recebeu aqui ostensivo apoio a
fantasiosas fraudes eleitorais do sistema americano a nos identificar diante
do Presidente-eleito Biden como apóstolos do Judas a atrair de forma
ensandecida e despropositada nosso país para um círculo de poucas nações
antagônicas ao visível esforço de reconstrução democrática dos Estados
Unidos da América. O que pretendemos ganhar com isto? Que outro
mandatário de país no planeta se mostrou tão gratuitamente solidário a uma

cantilena psicopática, rejeitada pelas cortes de justiça do conservador
sistema judiciário americano? A Coréia do Norte?

No Brasil, parlamentares procuram patrioticamente
conformar um arco suprapartidário unido em torno da defesa do texto
constitucional na esperança de conter a intentona agendada pela ideologia
retrógrada com data anunciada publicamente. Contra esse esforço
conspiram igualmente o fisiologismo atávico da política brasileira e a
ingenuidade messiânica a pretender caminhar isolada num campo minado
pelo ressentimento e pelo ódio enraizado. Não será a primeira vez que as
boas intenções asfaltarão a estrada para o inferno. E a incapacidade de unir
por consensos mínimos será abandonada pela ilusão de mensagens tão
ultrapassadas quanto as que pretende combater. Apenas a consciência de
prioridades, nos levará à maturidade do pacto político.
Neste cenário gravita a sociedade brasileira perplexa e
aterrorizada pela pestilência e pela monstruosidade de pressentir no
horizonte a adaga da intentona urdida por quem deveria ser o primeiro a
denunciá-la. Esta inversão de valores, em nome de falsos pressupostos na
condução da economia brasileira, — um desastre grandiloquente — de
anquilosados costumes de convivência social e de visão macabra do futuro
da nação, é o verdadeiro anti-Cristo a se levantar de punho cerrado a tudo e
a todos .

A cidadania brasileira está diante de sua esfinge. Decifrá-la
talvez seja o mais simples. Difícil será evitar a Intentona à letra e ao espírito
da Constituição de 1988 por aqueles que juraram respeitá-la, mas que a ela
não tem respeito nem temor. O resto é o resto.
Nós, cidadãos brasileiros, devemos nos unir à frente
democrática interessada em abortar o mostrengo a germinar nas entranhas
do golpismo autoritário. Encorajar nossos parlamentares sobre a importância
de trabalharmos juntos na construção de um país menos desigual social e
economicamente como nos manda a Constituição de 1988, nossa garantia
de unidade territorial e federalismo democrático
Fora disso será aderir a um trumpismo fracassado e
provavelmente genocida. Uma aventura de sociopatas em benefício da
cultura da expropriação— humana e material —sempre vitoriosa neste país
de percepções equivocadas, relutante em assumir a identidade das raças
múltiplas de seu povo, instrumento essencial na construção de uma
cidadania unida e consequente.

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