A Cidadania e a Intentona(2): 2021, afirmação democrática?

Adhemar Bahadian*

Feliz 2021? Não virá por encanto. Nem por milagre. Nem, muito
menos, por obra e graça do governo. Dois anos são suficientes para
sabermos para onde vamos ,ou melhor, para onde nos querem levar.
2021 começará no dia 20 de janeiro com a saída de Trump da
Casa Branca. Bom para os Estados Unidos. Bom para a humanidade. Trump
tentou implementar um autoritarismo à república de bananas e quase levou
os Estados Unidos a grave crise social e a instabilidade politica impensável.
Sai do governo, mas tentará permanecer nos holofotes políticos, única forma
de escapar ,ou pelo menos retardar ,seu encontro com a justiça. Ou, como Al
Capone, com a receita federal.

Sua perniciosa política autoritária encontrou em Bolsonaro o
discípulo fiel a acompanhá-lo em múltiplas leviandades. Influenciada por
Steve Bannon – hoje aguardando julgamento por apropriação indébita de
fundos beneficentes- nossa política externa foi a primeira vítima de uma
vinculação acrítica do Brasil com o Trumpismo a nos colocar em isolamento
internacional.

Obviamente, a contrapartida esperada seria o apoio ou pelo
menos a vista grossa dos americanos diante de um auto-golpe de tinturas
bolivarianas, fiel à geopolítica dos Estados Unidos. O movimento teve início
com as “ manifestações “ contra o Supremo Tribunal Federal e o próprio
Congresso, felizmente resistidas e paralisadas com os acontecimentos
trazidos pelo caso Queiroz e sobretudo pela reação do próprio Supremo.
Domingo passado escrevi sobre alguns aspectos da personalidade
do presidente da República. Sequer passaram sete dias e nos vemos diante
dos mesmos subterfúgios em suas declarações públicas ,em especial sobre
o não-combate à Pandemia e o ignominioso comentário extemporâneo e
descabido sobre a ex-Presidente da República Dilma Rousseff. Ambas a
confirmar a estratégia simplória de buscar transferir sua responsabilidade
funcional como mandatário da Nação .
Ao resvalar no submundo das violações de Direitos humanos
da ditadura militar, Bolsonaro deixou aflorar partes eclipsadas de sua
repulsa a compromissos assumidos na lei da anistia. E, desta forma ,
aprofundar ainda mais a polarização da sociedade brasileira, andaime
instável de sua estratégia política Carcará, a do pega, mata e come.
No fim do macabro ano de 2020 surge um movimento de
convergência democrática em que o envolvimento da cidadania é de
inegável importância. A eleição do futuro presidente da Câmara dos

Deputados adquire contornos de uma reação à marcha da insensatez em
que se tornou o falecido ano passado.

Difícil apontar maior desilusão da sociedade brasileira. Há os
que finalmente se convencem do fracasso da política econômica , pois
apenas as medidas emergenciais permitiram uma breve retomada da
atividade econômica. Torna- se a cada dia mais transparente ser o
Quasímodo do teto de gastos, parido na gestão adulterina Temer- Meireles ,o
golpe mais insidioso sobre os direitos fundamentais inscritos na Constituição
de 1988.
Bolsonaro- Guedes são apenas os serviçais de uma política a
resultar na maior hecatombe dos empregos formais e na destruição de
direitos trabalhistas desde os bons tempos do coronelismo patriarcal. A
insistência de Guedes em continuar a aplicação do modelo genocida,
acompanhado do corte de medidas emergenciais ,desnuda a arrogância do
economista autocrata e a mente insensível do espoliador financeiro.
Outros apontam o descaso com a Peste como sendo o apogeu do
morticínio social, do negacionismo científico e da indiferença diante da dor
dos mais de 195 mil brasileiros mortos como se por aqui tivesse caído a
bomba de Hiroshima. Neste episódio, os louros são compartidos entre Trump
e Bolsonaro. Ambos minimizaram a Peste, ambos sugeriram tratamentos
condenados pela ciência médica, ambos acusaram a imprensa de promover
pânico, ambos tiveram a sorte de terem formas leves da doença e ambos

tiveram o apoio maior das melhores instituições médicas de seus países para
o controle de eventuais arritmias e outros complicadores. Ambos se safaram
e se apresentaram à sociedade como se a morte pela Peste fosse uma
opção que só “ aos fracos e covardes abate”.
Trump apenas criticou os conselhos do maior infectologista de
seu país. Bolsonaro demitiu dois médicos do Ministério da Saúde e entregou-
o a um general do exército a quem não poupou múltiplos ferimentos por
“fogo amigo”, deixando-o sofrer a humilhação de ver seus atos sensatos
desautorizados por uma gordura egóica. O que em termos bélicos seria o
equivalente ao Comandante em chefe mandar o General atravessar a
metralha inimiga para levar uma mensagem que, no fim das contas, não
passa de um blefe.

Outros ressaltam a imprevidência na aquisição de vacinas
como sendo o “ nec plus ultra” da pasmaceira e da indiferença diante da
mortandade de seu povo. Aqui, Trump bateu-lhe de 10 a zero ,mostrando-
lhe as nuances entre o palco e a perversidade.
Mas ,como não há mal que sempre dure nem bem que nunca
acabe, apareceram as vacinas ainda que a conta-gotas. E já quando a
sociedade brasileira parecia respirar com certo alívio, descobre-se não
haver seringas, agulhas ,nem algodões entre cristais. E aí se tornou cristalina
a roleta-russa em que estamos involuntariamente envolvidos. E passamos a
temer por nossas vidas a qualquer hora ameaçadas por erros grosseiros,

políticas incompreensíveis e ações simplesmente tresloucadas, apenas
vistas nos episódios de ocupação de uma nação por um exército de
bárbaros.
E nos descobrimos cobaias numa operação política- policial a
crescer como onda de maremoto. Uma armadilha em que entramos pelo voto
útil, desconsiderando uma folha corrida onde a violência tangencia o delírio .
E baixa em nós o sentimento legitimo de defesa coletiva contra
ataques de pulsão de morte em proporções e tensões cotidianas ,como se
em guerra estivéssemos ou como se o inimigo ,com a mesma ardileza da
Peste, houvesse penetrado em nossos cérebros e pulmões e começasse a
nos sufocar. E nosso silêncio é cúmplice do morticínio. Nosso medo, aliado
do despotismo.

O movimento da frente democrática na Câmara dos Deputados
deve ser o ponto de comunhão entre a cidadania e seus representantes,
ambos conscientes de que o texto Constitucional é nossa única bandeira e
nossa única proteção . O resto é arbítrio. Golpe. Servilismo. E ignorância
enfarpelada.

Continuarei no próximo domingo. Feliz 2021? Depende de nós.

*Diplomara e do Conselho Deliberatido do IBEP

 

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