A governabilidade da boçalidade

Lincoln Penna*
A presidência de Jair Messias Bolsonaro se aproxima da metade de seu mandato. O que dele dizer senão registrar as manifestações extremas, isto é, a dos que o cultuam ou dos que o combatem pela inépcia, truculência e absoluto desprezo pela vida de seus semelhantes? Situar-se nesse ambiente é um convite a tomar partido, mas inócuo do ponto de vista de quem se propõe a examinar esse panorama político, dado que todas as dúvidas estariam de acordo com os posicionamentos já existentes, favoráveis em absoluto ou terrivelmente críticos na hipótese contrária.
Há, porém, uma dimensão maior que pode nos ajudar a compreender com mais precisão esse nó górdio da questão chamada bolsonarismo, expressão que se aplica mais aos seus fanáticos seguidores do que ao próprio objeto do fanatismo, uma vez que o bolsonarismo contempla um universo mais amplo do que os trejeitos do capitão da reserva no exercício da presidência. E essa dimensão está no centro da crise sistêmica do capitalismo, a provocar retrocessos democráticos e civilizatórios em várias partes do mundo, com graus e estragos mais ou menos avassaladores.
O Brasil que buscou, a partir, principalmente dos anos de 1950, uma via nacional e democrática inspirada numa conjunto de proposições vocacionadas para rever os entulhos de nosso passado colonial e neocolonial, lamentavelmente fracassou. Ou foi levado a tal em virtude da grande derrota das forças progressistas com o golpe de 1964. Desta data até hoje, a despeito da retomada do Estados de Direito Democrático, não logramos reaver com determinação política a pauta dos anos cinquenta do século XX. As correntes de esquerda comprometidas com as mudanças voltadas para a transformação da realidade nacional brasileira esgarçaram-se, e jamais conseguiram se reagrupar num esforço conjunto com vistas a retomada da pauta anti-imperialista tão presente à época.
As sucessivas frustrações de governos populares ou tendencialmente reformistas conduziram ao desalento de boa parte do eleitorado. Em paralelo, a extrema dificuldade de se operar medidas mais consequentes no plano das políticas sociais acabaram por manter enormes contingentes sociais à mingua, desassistidos e desorganizados para lutassem por seus legítimos direitos de cidadania. Com isso, crescia a reação, ou seja, as correntes ligadas aos interesses patrimonialistas reforçada pela onda neoliberal a demandar as mudanças operacionais com o fito de fazer imperar os interesses dos financistas ou do mercado sobre as economias fragilizadas do mundo emergente.
Estava instituída a governabilidade da boçalidade, que tem nas figuras histriônicas, grotescas e caricatas os nomes de Trump, Bolsonaro, Orban, entre outros, a melhor representação desse mundo que agride à política. E essa agressão parte da estratégia de desconstruí-la junto ao eleitor, como se a ação política traduzisse todo o mal que afeta os povos do mundo inteiro, a começar pela negação dos laços de cooperação inerentes ao multilateralismo sistematicamente atacado por esses senhores da estupidez, sempre em nome de seus supostos interesses nacionais.
No Brasil, Bolsonaro é a representação da boçalidade elevada ao patamar governamental. Dele nada se pode esperar salvo o seu compromisso em liquidar os ganhos democráticos, que embora tímidos mesmo assim precisam ser fortalecidos diante de ameaças mais contundentes aos interesses nacionais e populares. O papel do capitão à frente de um governo da estupidez é exatamente a de provocar a destruição da política como instrumento de negociação e de entendimento cruciais numa sociedade de classes e que exibe uma terrível desigualdade social, fruto de um legado escravocrata nunca enfrentado como deveria ser e de uma permanente dependência externa de modo a deixar expostas as feridas e mazelas sociais.
A financeirização, denominação que tipifica o estágio mais caótico e agressivo da fera capitalista a comandar as relações internacionais tem produzido essa espécie de animal político, que pode ser definido como governabilidade da boçalidade. Não se trata tão somente de adjetivar uma situação que nos constrange. Trata-se, isso sim, de definir a espécie que se impôs na arena de uma política criminalizada tendo como finalidade a destruição da própria política e, sobretudo, dos valores civilizatórios. Quem não compreender isso terá dificuldade de entender a emergência da ignorância dos fanatizados pelos mitos modernos ou pós-modernos.
*Historiador, escritor e Secretário Geral do IBEP
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