A PROPÓSITO DE BARBÁRIE

Lincoln Penna
Gordon Childe dividiu a evolução cultural do ser humano em três etapas: a selvageria, a barbárie e a civilização. Estaríamos, segundo ele, no tempo civilizatório, depois de a humanidade ter vencido os períodos marcados pela violência demarcatória de territórios e de conquistas tribais, assim como de impérios movidos pelo desejo de conquistas a todo preço.
 Apesar de leitor de Hegel, Marx e Engels, Childe desprezou um dado fundamental das leituras daqueles autores. Refiro-me à dialética. Com o recurso da lógica dialética é possível entender que toda a classificação de tempo em períodos em sua permanente evolução traz consigo avanços e retrocessos. Assim, a passagem de uma dessas etapas para a subsequente não elimina os traços da anterior por completo. Há resíduos, sequelas, enfim traços que coexistem com o processo evolutivo da sociedade humana.
 Marx já havia chamado atenção sobre isso, ao dizer que nas transições de períodos históricos definidos pela compreensão das relações entre os homens, que ele chamou de modos de produção ao referir-se as etapas da antiguidade marcada pelo escravismo, depois pelo período do feudalismo e em seguida do capitalismo, – no caso do ocidente – para cada uma dessas etapas existe a convivência de traços das etapas anteriores. Nenhum desses períodos históricos elimina por completo os vestígios dos anteriores. Se considerarmos a observação de Marx, a evolução proposta por Childe também incorpora em cada uma de suas etapas da evolução cultural da humanidade elementos que se encontravam presentes na anterior.
 Dessa maneira, a barbárie não extinguiu por completo os traços de selvageria, assim como a civilização convive com os vestígios da barbárie. E como a atual etapa civilizatória foi grandemente marcada pelo advento do capitalismo, não há como negar que se  convive com a presença desses vestígios oriundos da barbárie, que em determinados momentos parecem ganhar uma amplitude em razão das crises que se manifestam na crônica evolução contraditória do desenvolvimento das formas de produção e apropriação do capitalismo. Para manter-se absolutamente hegemônico, seus operadores, a classe burguesa, lança mão de métodos e práticas violentas e retrógradas, típicas das etapas pré-civilizatórias.
 Recorro a Childe e a Marx, dois clássicos cujas contribuições à ciência são inegáveis, quer queiram ou não seus críticos, para nos situarmos nos tempos em que vivemos. Tempos que não deixam dúvidas quanto à presença de fortes traços de barbárie, seja no plano das formas de poder instituídos ou no comportamento de seus indivíduos. Apontar para o advento da barbárie como uma possibilidade em face de atos que contrariam o bom senso e a convivência democrática não é apenas uma advertência, como a sugerir cautela a governantes e governados. Trata-se, na verdade, de registrar a presença dos tais traços a conviver com a humanidade em seu tempo de vida civilizatória.
 Há diferenças, contudo, nessa coexistência. Os atos e comportamentos a violentarem os marcos civilizatórios podem ocorrer episodicamente ou tornarem-se sistemáticos e, portanto, continuados a ponto de ferir os princípios da humanidade em sua etapa mais culturalmente avançada. Neste caso, o do recurso sistemático e continuado estamos a viver uma clara manifestação de retrocesso. E quando isso é dirigido conscientemente por parte de um poder de Estado, com os recursos que lhes são inerentes, a coexistência com o passado remoto provocado por políticas retrógradas torna-se altamente preocupante.
 É, por isso mesmo, inevitável a alusão a atuais governantes, cujas ações políticas ou inações, como na atual pandemia a afetar a condução do processo político nos faz lembrar das obras de Childe e de Marx. A evolução inexorável do tempo contém ao mesmo tempo a esperança de superação e a constante vigilância quanto a necessidade de remoção de traços que impedem avanços mais seguros e definitivos no rumo à satisfação sem sobressaltos. E isso só será possível com a democratização do poder. Enquanto ele permanecer restrito a classe detentora de privilégios ou a indivíduos a deterem a prerrogativa de ditar o destino da humanidade estaremos todos condenados a permanentes retrocessos.
 Para evitar que a própria democracia ao facultar a vontade do povo a escolher seus dirigentes se faça realmente a favor de seus desejos, é preciso que essas escolhas sejam feitas com base na informação, no conhecimento da realidade da qual se originam os problemas que angustiam as pessoas. Logo, informação livre e massiva combinada à educação conduzida e levada a todos indistintamente são as ferramentas indispensáveis ao bom funcionamento dos processos democráticos. Eles costumam ser barrados ou atropelados por decisões que consultam interesses privados dos poderosos, que não hesitam em recorrer aos tempos pretéritos do mando exclusivo sobre os povos. Razão pela qual as possibilidades de retrocesso acabam por prevalecer nesses tempos alcançados pela civilização. Mas a civilização possui instrumentos para barrar tais retrocessos. A ciência, a consciência histórica e o cultivo das conquistas alcançadas pela humanidade ajudam a afastar a permanência da barbárie
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