A rebeldia irreverente da verdade

Um número eloquente de cidadãos americanos duvida da necessidade de Trump ser internado por sua infecção pelo Covid-19. Parece a muitos ser exagerada a remoção do Presidente para o Walter Reed Hospital com todo o aparato de helicópteros e ostensiva cobertura da imprensa. Discretamente, como ele gosta.
Causou perplexidade ainda maior a Casa Branca ter mantido silêncio sobre o resultado positivo do teste, sem dele dar conhecimento aos responsáveis pela campanha de Joe Biden e a Nanci Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados e a outras autoridades presentes no horrendo debate presidencial.
À primeira vista, a dúvida de eleitores americanos parece descabida e desumana. Numa reflexão mais distanciada, adquire contornos de forte compreensibilidade e resultaria da perda absoluta de credibilidade do Presidente americano após quase quatro anos de diárias afirmações enganosas ou frontalmente mentirosas disseminadas junto a seus eleitores, adversários e aliados no território americano e fora dele. A países amigos e a potenciais adversários.
Por coincidência, infeliz ou não conforme o perceba o leitor, o anúncio da infecção veio pouco mais de três dias depois do debat presidencial quando Trump mostrou ao mundo os monstros de sua alma perversamente comprometida com a infâmia, o desrespeito e a incivilidade.
A sociedade americana viu em toda sua crueza o mais abjeto espetáculo político do século 21 e o mais degradado debate de idéias de toda a história dos Estados Unidos da América.
Por mais repelente tenha sido ouvir as palavras cruéis dirigidas a Biden sobre seus filhos, um deles herói de guerra, outro marcado por uso de drogas, nada foi mais digno de respeito no debate do que a reação vigorosa e destemida de um Joe Biden, pai antes de tudo, a defender a honra e a memória de seus filhos. O aparente frágil Joe Biden, a quem
Trump ridiculariza por sua relutância em tropeçar numa gagueira vencida desde a infância , chamou-o com razão de palhaço.

Esta cena deve ter levado o mais ingênuo de seus eleitores a se horripilar ao lembrar-se de que aquele indivíduo aparentemente humano no vestir e no pentear dos cabelos detém o poder legal de apertar os botões de
uma terceira guerra mundial em que a terra se transformaria em poeira cósmica.

Não terá sido por outra razão que as doações populares à campanha de Biden, após o debate, cresceram exponencialmente . Trump transformou-se no candidato do terror, a expressão histérica do poder
armado mais melomaníaco de que se tem notícia. Não é à toa também que se comenta ser Trump um exibicionista a ponto de deixar constrangido o militar encarregado de o acompanhar com os códigos secretos de eventual
ataque atômico americano. Um perigoso e espalhafatoso nouveau -riche a desafiar seus amigos endinheirados a competir com seu poder de destruição impensável.
Terá também contribuído para fazer o tumor maligno de seu narcisismo explodir diante do mundo, a recente revelação de suas tramóias e trapaças com o Tesouro americano para burlar seus compromissos de contribuinte do imposto de renda. Com desculpas esfarrapadas, talvez fizesse corar Al Capone, Trump argumenta nada ter feito senão seguir e
aproveitar-se das regras do Código Tributário americano e desta forma incentiva a sociedade a seguir-lhe os ensinamentos anárquicos.
Refratário a qualquer crítica, não assume sua responsabilidade pela forma como contribuiu para a disseminação da Pandemia nos Estados Unidos e insiste na fantasiosa teoria do vírus chinês, denigre a ciência médica e os cuidados de saúde pública a ponto de ironizar Joe Biden por usar sempre máscara, como se fosse um gesto egoísta e não uma
preocupação também com a saúde dos próximos.

Os livros publicados recentemente sobre Donald Trump nos Estados Unidos deixam claro que o Presidente gasta mais de quatro horas diárias na Casa Branca assistindo a Fox News, canal que o apoia incondicionalmente . Relatam também sua repulsa a ler informes e memoranda sobre temas vitais para segurança nacional. Reage por instinto e fez do twitter a única forma de se comunicar. Um grande ignorante da história e cultura de seu país . Impregnado de preconceitos sobre a vida e as aspirações dos demais povos. Um formidável negacionista dos problemas climáticos. Um retrógrado no sentido mais literal da palavra. Preconceituoso supremacista branco com uma concepção de ordem e lei em conformidade com os tacapes e as bordunas.
Desejo a plena recuperação de Trump. Que retome sua fantasiosa campanha eleitoral. E em novembro seja derrotado de forma acachapante pelo voto, arma de um povo cansado de mentiras, temeroso de estar às mãos de um lunático, semeador de uma guerra civil, defensor de uma limpeza étnica vergonhosa na maior democracia do planeta.
E desta vitória renasça uma Democracia comprometida com os direitos fundamentais dos cidadãos, com a igualdade de todos perante a justiça dos homens . E o século 21 possa finalmente alvorecer.

Adhemar Bahadian*, Diplomata e Conselheiro

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