A vitória parcial e os desafios postos

Roberto Amaral

Os percalços hoje vividos pelo país (que voltou a temer o futuro) em muito remontam à persistente dificuldade de a esquerda brasileira interpretar o processo social, mais precisamente aquele movimento que, segundo entendo, se anunciou em 2013 como a ponta de um iceberg de base imperscrutável. O que a quase todos parecia, naquela altura, um sopro na superfície de lago sereno, seria revelado, mais tarde, como algo similar à movimentação de placas tectônicas, apenas percebível quando as explosões chegam à superfície. Poucos viram, então (e Gilberto Carvalho foi um deles, granjeando o mau humor de diversos companheiros), uma mudança qualitativa no processo político-social, que a esquerda, notadamente o politiburo petista, continuou imaginando congelado – mesmo após os percalços eleitorais de 2014, e o massacre a que nosso governo foi submetido em 2015.

 Nos duros idos do esforço coletivo por salvar o mandato de Dilma Rousseff, fui muito mal compreendido por nomeados líderes do nosso campo, quando, numa plenária da Frente Brasil Popular, que ajudara João Pedro Stédile a organizar, trouxe para discussão as dificuldades que nossas organizações enfrentavam na mobilização popular. Continuávamos presos às aparências, confundindo o carisma de Lula com a ascensão do pensamento progressista. E hoje, ainda, após a deposição de Dilma, dos feitos e efeitos da Lava Jato, da prisão de Lula, da eleição de Jair Bolsonaro e do governo do grande capital, dos militares e dos milicianos, chegamos a 2022 convencidos de que iríamos simplesmente enfrentar mais um pleito, pois se trataria, como antes, de uma eleição “normal”. Descartávamos o papel das transformações sociais na política. 

O país mudara e continuávamos olhando a história pelo retrovisor, sem perceber a nova natureza do processo político-eleitoral. O PT falhou em compreender que não se tratava, mais, tão-só, de enfrentar, como antes, a hoje falecida socialdemocracia paulista, mas de terçar armas, numa disputa de vida ou morte, com um novo projeto de poder da classe dominante. Um projeto de ambições ditatoriais que namoram com o legado fascista, comandado por um candidato sem limites éticos ou morais que, desde 2018, mais que a vitória puramente eleitoral (naquele então impensada), se propunha a organizar e liderar a extrema-direita, e preparar as condições objetivas para a instauração de uma ditadura protofascista – que, ao esperável apoio do grande capital, associava inédita e larga base popular. 

 A consumação desse projeto (que não se concluiu no atual governo, sua porta de entrada) está sendo adiada, aos trancos e barrancos, pela resistência democrática difusa, mas a conquista do que se convencionou chamar de “corações e mentes” das grandes massas é um fato que não permite dúvida: 43% do eleitorado brasileiro referendaram o bolsonarismo. 

Apesar de seu discurso e de suas ações, apesar do desastre rotundo de seu governo, o capitão aumentou em 2022 sua votação sobre a obtida em 2018. Em que pese a forte oposição, inclusive da grande mídia, nada obstante a frente ampla que se formou em defesa da democracia e da candidatura de Lula, que chegou a reunir consideráveis setores do chamado “centro”, da socialdemocracia e mesmo da burguesia. Não é pouca coisa.

Não há, em toda a história republicana, precedente similar de avanço do pensamento e da ação da extrema-direita brasileira.

 Os arreganhos integralistas dos anos 1930, em comparação, podem ser relegados ao capítulo das insignificâncias, tanto quanto Plínio Salgado fica anos-luz distante da periculosidade do capitão. Não obstante as sondagens de opinião, hoje tão contestadas, haverem indicado a liderança de Lula na faixa de renda até dois salários mínimos, e apoio majoritário ao candidato da extrema direita entre os eleitores que ocupam o topo da pirâmide salarial, o resultado do primeiro turno está a desmentir o imaginário segundo o qual Bolsonaro seria o candidato tão só dos ricos e dos bem postos na vida, contingente de uma minoria mínima; mas igualmente desmente o imaginário segundo o qual Lula tinha sua candidatura abraçada pela maioria dos pobres, pois, nesse caso, sua vitória teria sido esmagadora já no primeiro turno. 

A questão que pretendo pôr de manifesto caminha para além do fato de Lula não haver cravado vitória no primeiro turno, e transcende mesmo a possibilidade de sua vitória no final deste mês. O que precisamos considerar é o fato de um candidato de extrema-direita, expressando o discurso da extrema-direita, do confronto e do autoritarismo, haver obtido a aprovação de 43% do eleitorado. Essa votação abarca todos os segmentos sociais e se espalha por todo o país, passando por sobre limitações rurais e urbanas, que as concentrações eleitorais dos candidatos não desmentem. Consagrado no Nordeste (ou seja, pelo eleitorado residente na região), Lula não se revelou o candidato dos nordestinos, pois o nordestino emigrado votou, em grande parte, no ainda presidente, como demonstram os números de SP e RJ .  O eleitorado mais firme de Lula parece situar-se junto da classe-média (onde o bolsonarismo tem evidente presença), enquanto suas maiores dificuldades, postas de lado as avenidas Paulista de todo o país, estão localizadas nos bolsões urbanos de pobreza, dominados pela aliança do assistencialismo com seitas religiosas e o crime organizado. 

Mas o que ainda se cobra do candidato, por intermédio da imprensa corporativa e mesmo no seio da campanha, é um mais caminhar ao “centro” (o novo nome-fantasia da direita tupiniquim), enquanto o dito “mercado” mais lhe promete amarras em troca de um apoio que não oferece, ao tempo em que celebra o desfecho do primeiro turno por pelo menos adiar a eleição de Lula, e aplaude a eleição de um Congresso de maioria reacionária. Essa é a classe dominante que o processo histórico brasileiro produziu, desapartada dos interesses do país. Processo  que também  nos legou um povo majoritariamente conservador, místico, crente, temente às mudanças que lhe poderiam beneficiar.

A dificuldade de interpretar o processo social, como assinalada, está na raiz de nossa dificuldade de enfrentar o desafio posto no processo eleitoral, donde o resultado do primeiro turno, inesperado pelo pensamento mágico, que jamais se casou com o realismo crítico do raciocínio político. Sinal da incompreensão das alterações que continuamente se processam na sociedade, os estrategistas da candidatura popular privilegiam, no primeiro turno e ainda agora, as articulações pelo alto, na vã suposição (negada até aqui pela realidade imediata) de que se reproduzirão nas bases populares, que são,  afinal, quem decide, mesmo quando não são ouvidas. A onda de 2013, que encontrou seus principais desdobramentos na deposição de Dilma e na eleição de Bolsonaro, segue viva e, na medida em que caminha, alarga as margens e avança em velocidade.

O somatório de uma série de erros nos levou a todos – direita dita civilizada, “centro” e esquerda – a um impasse que nos colocou como possibilidade real a emergência de uma nova forma de implantação de um regime ditatorial, o qual, dispensando os tanques, ameaça a tomada do poder no cume de um processo eleitoral legitimado. É esta a ameaça que representa a eventualidade – que não deve ser desprezada – da reeleição disso que aí está.

Só a vitória de Lula pode impedir o retrocesso perseguido por Bolsonaro e seus cúmplices. Com ela, eleição na qual apostamos com base na vontade e nos dados empíricos disponíveis, evitaremos o rompimento do dique que ainda contém a tragédia em curso. Trata-se, pois, de uma necessidade histórica, um imperativo. É muito, mas ainda não será tudo. Já está à vista, independentemente do que nos dirão as urnas no próximo dia 30, nosso enfrentamento, no governo e fora dele, em todos os espaços da vida social, com uma extrema-direita agressiva e orgânica, apoiada no grande capital e nas grandes massas, com sólida base militar e miliciana, além de conexões internacionais, num momento em que essa vertente cresce nos EUA, ganha as eleições na Itália e, associada à direita, controla o parlamento e o governo suecos. A antiga e vitoriosa socialdemocracia sueca transforma-se em aliada política da Turquia, da Hungria, da Polônia, governadas pelo obscurantismo. A nova extrema-direita brasileira, ademais, tem como capo um militar sem escrúpulos ou limites morais, que no entanto carrega como patrimônio a inequívoca liderança sobre 43% do eleitorado, ou seja, 1/5 da população brasileira. Este é o fato político que devemos considerar, para além do que nos diga o resultado do segundo turno.

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O mercado (consciente de seus interesses de classe) não se comoveu  com o apelo centrista da campanha de Lula – Segundo o autorizado Valor (4/10/2022), resultados do primeiro turno animam “mercados domésticos”: “O resultado das eleições, com bom desempenho dos candidatos conservadores e distância menor que a projetada entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), resultou em euforia nos mercados domésticos. O Ibovespa, embalado pela alta expressiva nas bolsas em Nova York, saltou 5,54%, para 116 pontos, melhor performance diária desde abril de 2020. Já o dólar fechou em R$ 5,1746, com uma queda de 4,07%, a mais intensa em pouco mais de quatro anos. Os juros futuros também caíram. A leitura dos agentes econômicos é que o cenário mais provável ainda é de uma vitória de Lula, mas agora ele terá de ser mais claro sobre suas propostas para a economia com o objetivo de conquistar novos eleitores. Ao mesmo tempo, o mercado embute nos preços uma possibilidade maior de reeleição. Para um banqueiro, outro ponto é a formação do Congresso, que deve fazer com que Lula se mova ao centro para conseguir governar, caso seja eleito”. 

As eleições no Rio de Janeiro – As direções estaduais do PT e do PSB devem uma explicação ao país. Por que se uniram para assegurar a lamentável reeleição de Romário para o Senado? Os candidatos do PSB (Molon, o segundo colocado) e do PT (Ceciliano, o quinto colocado) somaram 33% dos votos. O candidato bolsonarista, 29%.

Eleições a comemorar – Se lamento profundamente as derrotas de Olívio Dutra e Ricardo Coutinho, há muitas eleições a comemorar. Destaco as que me são mais caras: Glauber Braga e Reimont no Rio de Janeiro, e Luiza Erundina em São Paulo. Todos para a Câmara dos Deputados. 


* Com a colaboração de Pedro Amaral

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