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A Eleição que o Mundo espera

A Eleição que o Mundo espera

Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático.

(Darcy Ribeiro, em Povo brasileiro)

Ao registrarmos a proximidade do centenário de nascimento do grande patriota Darcy Ribeiro, pois era dessa forma que gostaria de ser lembrado, vale a pena refletir sobre o que disse acima nessa epígrafe. Assim o faço relembrando-o não apenas em homenagem a quem devotou todas as suas energias para denunciar e se indignar diante de nossas mazelas, mas porque sua sentença cabe quando estamos a algumas semanas do mais importante pleito de nossa história.

A atenção com que se aguarda a realização das eleições no Brasil neste ano por parte tanto do Ocidente capitaneado pelos EUA, quanto pelos estados que formam o conglomerado da Eurásia, sob a liderança da China e da Rússia, é indiscutível. E tudo em meio ao atual conflito tendo a Ucrânia como território no qual as grandes potências econômicas e bélicas medem força no atual panorama internacional.

Esses protagonistas se encontram vivamente atentos ao resultado da eleição presidencial no Brasil, em especial A isso se deve uma razão, qual seja a importância estratégica que o Brasil representa mais do que nunca hoje em dia. Membro fundador da ONU, integrante do BRICS e estado relevante do continente latino-americano, o Brasil ainda ostenta um lugar não desprezível no que concerne à defesa do meio ambiente, pois assim ganhou destaque em governos anteriores ao atual.

Essa comunidade mundial espera com ansiedade o desfecho do pleito de outubro para que o Brasil contorne os graves problemas decorrentes de um processo de desmonte do estado nacional brasileiro promovido pelo governo Bolsonaro. E esta expectativa passa pela possibilidade de uma solução a partir de meios eminentemente políticos, sem apelar para os recursos extralegais. Com isso, a via apontada por Darcy Ribeiro parece ser aquela que atende a grande maioria dos estados que acompanham o processo eleitoral brasileiro.

A sapiência do antropólogo, educador e político, entendeu que o enfrentamento pela via do rompimento institucional tem um alto custo social ao passo que a negociação, sem que se dê margem à conciliação para que tudo permaneça como está, pode fazer avançar as pautas sociais de natureza popular, mediante iniciativas que venham a acumular forças e mudar definitivamente a situação do povo brasileiro.

A ideia do reformismo social como instrumento de reconstituição de uma sociedade desigual e partida diante dos desafios e os caminhos para sua equação parece ser a que deve prevalecer na decisão do eleitorado. Trata-se de uma consulta às esperanças de um povo que tem experimentado muitas e seguidas frustrações, mas que apesar disso continua no firme propósito de apostar no bom senso de seus concidadãos. E esta consciência coletiva, mesmo acompanhada de indignação pela não resolução de seus problemas imediatos se insere na confiança que tem sido depositado na democracia.

A propósito, convulsão social tem o sentido de erradicação de ações corrosivas ao ordenamento político e constitucional, cujo objetivo não é necessariamente a constituição de uma nova ordem social, mas a difusão da desordem com a finalidade de fraturar os valores democráticos. É dessa maneira que se deve entender o vocábulo utilizado por Darcy e que tem sido evocado como bandeira diante da iminência da perda eleitoral pelos adeptos do presidente Bolsonaro. Criar, em suma, a baderna.

Logo, é preciso diferenciar – e nunca é demais insistir – reformismo social de adequação e naturalização das desigualdades sociais. Estas geralmente alimentadas quando se pratica a velha e odienta prática da conciliação. Além disso, sempre é bom atentar para o fato de que o reformismo social levado às últimas consequências conduz como decorrência dessa prática ao aprofundamento de iniciativas emanadas do povo de modo a criarem as condições para o despertar da sua libertação. Um passo, portanto, para o advento das transformações de cunho revolucionárias.

O equívoco de quem opõe reformismo social às revoluções acaba por minimizar o processo social em curso. Da mesma forma que as revoluções são o resultado de uma longa trajetória de lutas continuadas, que passa por medidas de contenção impeditivas de sua eclosão por parte das classes dominantes no contexto das lutas de classes há, por outro lado, iniciativas reformistas a minar pouco a pouco as resistências dessas classes. Assim, as políticas reformistas de orientação social acrescentam um elo a esse processo que faz germinar as revoluções, não a travá-las, como alguns imaginam.

Reduzir as revoluções aos episódios de tomada do poder é desconhecer a sua historicidade, tão importante quanto o desempenho das lideranças que num dado momento perceberam o momento da mudança de regimes políticos em sociedades nas quais essas revoluções foram gestadas. O fazimento, como diria Darcy, dos atos que modificam revolucionariamente uma dada realidade social obedecem a enredos que foram construídos historicamente. Não são o resultado de elucubrações.

O que o mundo espera das eleições brasileiras é a demonstração de que o povo saberá corrigir seus erros na escolha de seus governantes, e assim criar as condições para prover o país de um papel saliente tornando-se o interlocutor privilegiado entre as nações no contexto de um mundo, que aponta para mudanças importantes no cenário internacional, não obstante apresentar impasses que podem reconduzi-lo para o enfrentamento de novos e catastróficos conflitos.

O conjunto das nações, enfim, espera que se firme o princípio do equilíbrio mundial mantido até aqui desde o término da Segunda Guerra Mundial. E essa esperança passa por países que possuem em sua história um crédito reconhecido por todos os entes constituídos em estados nacionais. Manter essa credibilidade passa por governos que honrem essa tradição. Sobretudo, na defesa da paz entre os povos, mais do que nunca necessário nessa hora. Assim, o Brasil desponta como uma voz necessária no embaraçado panorama internacional. A escolha está dada e o povo eleitor saberá sufragá-la.”

Lincoln Penna

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