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A mídia e a subjetividade roubada no desenvolvimento dependente

A mídia e a subjetividade roubada no desenvolvimento dependente

… . “Assim, com o lento passar dos anos e das vidas chegou o tempo em que a esmagadora maioria das pessoas, espontaneamente ou não, teve que assimilar os valores de um pequeno número de indivíduos. E, para que isso acontecesse, como se isso fosse natural, até lutaram por eles(…), contra todos os obstáculos que se opunham à construção do mundo burguês. E muitos o fizeram animados pela esperança consoladora de que estavam ajudando a criar na Terra um paraíso que, imaginariamente, se perdera, sabe-se lá quando e onde”.  ( Paulo Micelli, in As revoluções burguesas”)

O golpe político-jurídico que confiscou o voto direto de 54 milhões de cidadãos brasileiros e submeteu o país ao processo de impeachment  de 2016,

detonou o alerta para o reiterado papel dos meios de comunicação nos processos de ascensão e queda das representações mandatárias do país.

Desde o fim das ditaduras na América latina, o tema da regulamentação democrática da mídia de massa foi assunto negligenciado no processo da luta política dos setores progressistas, e mais específico da esquerda, que se dividiam entre a continuidade da militância alternativa segmentada e a estratégia de atuar nos meios corporativo-conservadores.

Hugo Chávez, presidente da leva dos governos de alinhamento popular que ocuparam as Américas de tradição histórica oligárquico-colonial-plutocrática, foi o primeiro a colocar em pauta a necessidade de implementar políticas de Estado relativas à democratização dos meios de comunicação, então concentrados em pequenos grupos ou famílias. Assim que assumiu o posto na Venezuela, Chávez entendeu que um governo de reformas que desvinculassem o país do modelo de desenvolvimento dependente, legado da mentalidade colonialista nunca revogada, por mais modestas e recatadas que fossem essas reformas, elas não caberiam nas páginas e nas emissões de rádio e TV dos periódicos e programas de propriedade e controle das classes hegemônicas. Melhor dizendo, esse governo só teria espaço para ser combatido. Daí a necessidade de criar uma comunicação afinada com o desenvolvimento voltado para os interesses internos comprometidos com suas raízes e, em definitivo, rompidos com a condição subalterna às demandas dos países centrais industrializados e às expectativas políticas do imperial-colonialismo.

O golpe de 2016 no Brasil confirmou o que já se sabia: a manipulação editorial dos fatos praticada pelos meios conservadores e reacionários, muito facilitada pela ausência de veículos de alcance massivo perfilados ou simpáticos às políticas de progressistas para fazer o contraponto, operaram eficaz estelionato informacional que, mais uma vez, roubou a subjetividade, solapou a percepção e constrangeu a sensibilidade até mesmo daqueles que vinham sendo beneficiados pelas políticas voltadas para atender as necessidades essenciais da população.

De 2013 a 2018 a mídia editou o golpe. Organizou as informações, imprimiu a sintaxe de legitimação do projeto dos golpistas ao qual está associada, e num incansável trabalho diuturno botou para funcionar sua máquina de principal suporte propagador das notícias junto à sociedade de massa ou, como preferem hoje, junto às multidões de tamanho variado que compõem os fragmentos da contemporaneidade tardia.

A postos, praticou ao revés as técnicas de agitação e propaganda, e publicidade, para derrubar a democracia, indiferente à advertência histórica de que não se brinca com a democracia. Arrogante no lugar extraoficial que lhe foi outorgado de mediação entre sociedade e Estado, o chamado Quarto Poder, achou que seguiria sendo fácil expurgar no devido momento qualquer percalço que lhe fugisse ao padrão. Assim não foi, assim não está sendo.

A mídia comercial massiva, filha dileta da democracia liberal burguesa, acusou o golpe. Comprometida desde o cordão umbilical com a burguesia tradicional, vem acionando seus motores a todo vapor para conter ‘estranhos’  parvenus empenhados em construir e implantar a República militarizada do Templo de Salomão, ameaça efetiva aos seus genitores, e por extensão a ela própria, a mídia, aparelho de garantia da manutenção da hegemonia de poderes até então exercidos e desfrutados pelos seus, para o seus e com os seus. A noção de estranheza vem a ser fruto da soma da arrogância com a ignorância, coquetel de violência que captura a subjetividade dos seguidores obedientes, fiéis e crentes leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Isso porque toda formatação midiática é parcial e ideológica, e tem o poder de influenciar seja a partir do pensamento único ou do pensamento crítico.

Mesmo quando não consegue perceber um perigo real porque está dedicada a dar sentido de realidade ao seu imaginário privado, com o objetivo de propaga-lo para o grande público, a mídia sabe que esse é um campo de disputa que pode abalar sua pretensão permanente de derrubar e eleger programas contrários às intenções das elites internas e externas.

Às vésperas do ano 2000, e nas primeiras décadas do século XXI, as mídias burguesas da América Latina tomaram uma rasteira. Foram eleitos Hugo Chávez ( fevereiro de 1999, Venezuela), Lula ( janeiro de 2003, Brasil), Nestor Kirchner( maio de 2003, Argentina) , Tabaré Vasquez (março de 2005, Uruguai), Evo Morales ( dezembro de 2005, Bolívia), Manuel Zelaya( janeiro de 2006, Honduras),Rafael Correa( janeiro de 2007, Equador), Cristina Kirchner( outubro de 2007, Argentina); Fernando Lugo(agosto de 2008, Paraguai) e José Mujica ( março de 2010, Uruguai). Até o pleito, essas candidaturas foram alvo das mais brutais e detratoras campanhas dos meios de comunicação burgueses. À revelia de todo o tipo de ataque, a vitória em bloco dos progressistas mostrou que a pressão da mídia oposicionista não foi capaz de conter o desejo manifesto nas urnas por pautas, senão progressistas, ao menos contrárias à política ortodoxa de arrocho sobre os trabalhadores.

A contradição surpresa entre a movida do real e a guerra de movimento do consórcio midiático burguês internacionalista, em lugar de aprofundar ilusões, mereceu particular atenção da Venezuela. O governo de Hugo Chavez, herdeiro do ideal de Simon Bolivar de integração e emancipação latino-americana, integrou a questão comunicacional de massa ao programa de políticas de Estado. Comprometida com as causas do povo, a comunicação do governo bolivariano da Venezuela nasceu e segue com o objetivo de divulgar informações sobre a fundamental possibilidade e importância do desenvolvimento inclusivo. Chavez foi militar durante 23 anos. Deixou as Forças Armadas, em 1994, com a patente de tenente-coronel. Em entrevista coletiva durante o Fórum Social Mundial de Porto Alegre de 2005, tive a oportunidade de perguntar ao presidente Chavez que papel desempenhavam na Venezuela os militares que ainda estavam na memória do continente como a força armada violenta e arbitrária contra a luta democrática e popular. Chávez iniciou a resposta com uma pergunta brincalhona para continuar em sério: _. Você joga beisebol? Porque deu uma tacada certeira. O papel dos militares é de ser a força de proteção, ajuda, garantia e guarda dos direitos políticos, sociais e econômicos do povo. As Forças Armadas existem para servir o povo.”. Nesse mesmo ano, por iniciativa do presidente Chávez entrou no ar a TeleSur, canal de comunicação multiestatal , ao qual aderiram Cuba e Nicarágua. A TeleSur nasceu da “evidente necessidade latino-americana ( de )contar com um canal que permita a todos os habitantes desta vasta região difundir seus próprios valores, divulgar sua própria imagem, debater suas próprias ideias e transmitir seus próprios conteúdos, livre e equitativamente”, dizia o comunicado oficial. O slogan da TeleSur é ‘Nosso Norte é o Sul’. Brasil, Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia, Honduras e Paraguai, não aderiram.

Chavez entendeu que a mídia não pode ser compreendida por si só como um membro apartado do todo orgânico da política. É mais um elemento forte da estrutura do sistema que não pode nem deve ser negligenciado. É uma potente arma ideológica e porta-voz amplificada do processo de construção de uma sociedade. Nessa perspectiva, os meios de comunicação de massa nos golpes de 64 e 2016 tiveram a mesma função de sustentar no discurso as estratégias terroristas do medo, da insegurança e da desestabilização, que garantissem a conquista irrevogável do Estado pela burguesia das finanças e partidária da dependência.

Em 2018, o ideal foi parcialmente atingido. O candidato do ‘Brasil país de Todos’ estava encarcerado, vítima de armadilha jurídico-midiática, e o candidato do ‘Brasil acima de tudo’ se elegeu sob as benções dos meios corporativos.

Nos anos 70, 80 e 90 do século XX, havia em algumas redações de televisão a analogia entre botar o jornal e um boeing no ar.  Tinha que pilotar direitinho para não cair e, dependendo da tecnologia e das condições de temperatura e pressão externas, o grau das turbulências variavam muito. Não estou mais em redação, falo de fora, mas não está difícil perceber que não foi um bom negócio apostar na venda da Embraer para a Boeing. Nem a Boeing quis levar adiante o negócio e desfez o trato. Não está fácil para ninguém, menos ainda para a mídia e seus profissionais que apostaram em céu de brigadeiro quando as nuvens já evidenciavam a tormenta.

O jornalismo é a mais bela profissional do mundo, disse certa vez Gabriel Garcia Marques, mas é preciso ser exercida com a dignidade e a responsabilidade da qual se orgulhava Saramago por nunca ter escrito nada que humilhasse e ofendesse seu povo.

Articulistas

  • Maria Luiza Franco Busse

    Maria Luiza Franco Busse

    Jornalista, graduada em História, mestre e doutora em Semiologia, e pós-doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ

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