Biden e os EUA dos opostos extremismos. A palavra de Massimo Faggioli

Riccardo Cristiano, em Formiche, tradução é de Luisa Rabolini.

Os posicionamentos nos diferentes campos que apoiaram Biden já parecem querer puxá-lo para um lado, ou opor resistência pelo outro, em vez de lhe oferecer apoio para um novo projeto. “A dificuldade também é percebida em alguns silêncios sobre a primeira vice-presidente mulher”. Conversa com Massimo Faggioli, professor de Teologia e História do Cristianismo na Universidade Villanova em Filadélfia.

A reportagem é de Riccardo Cristiano, publicada por Formiche, 10-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Joe Biden conseguiria criar uma harmonia entre liberais e católicos democráticos? Citar a encíclica “Fratelli Tutti” e dar prioridade à questão ambiental, escolher uma linguagem de unidade e não de divisão foram sinais importantes, para o Vaticano, mas não apenas para o Vaticano. Foram sinais de uma intenção. Existem condições para criar no tempo e na cultura dos EUA um novo encontro? Poderiam existir?

De seu observatório na Filadélfia, onde ensina teologia e história do cristianismo na Universidade Villanova, o professor Massimo Faggioli observa com atenção os primeiros desenvolvimentos políticos no campo democrático após a vitória de Joe Biden. Conversar com ele é sempre estimulante porque, há anos perfeitamente integrado na dinâmica cultural e social estadunidense, ele sabe lê-los e apresentá-los a um interlocutor europeu com o pleno domínio de suas categorias políticas, pois elas também são as suas já há bastante tempo. Para mim, que imediatamente lhe pergunto sobre as perspectivas de uma agregação transcultural, entre secularizados e fiéis, com o católico Biden, ele responde partindo dos dados estatísticos para enquadrar os desafios que aguardam o novo rumo estadunidense.

A idade é importante para definir Joe Biden como expressão política de um catolicismo democrático que não mostrou novas vozes até agora. A sua apresentação no “quem é quem” dos Estados Unidos da América hoje aponta que não existem expoentes realmente católicos e mais jovens que Biden e que possam indicar um movimento político. Obviamente, porém, que o catolicismo existe, porém está comprometido com as questões sociais e, ao ouvi-lo, fica-se com a impressão de que não tenha intenção ou interesse em dar vida a um fenômeno político-cultural que encarne a visão que aqui poderíamos definir como católico-progressista.

Claro, Faggioli sabe que existem importantes universidades católicas dos jesuítas, tanto em Washington quanto em Boston e Nova York, que poderiam ser a força motriz, mas para construir uma cultura política são necessárias expressões e as grandes estruturas do que tem sido nos últimos anos o cristianismo trumpista e que desde a época de Bush jr. deu origem ao que foi definido como uma espécie de “ecumenismo do ódio“, permanecem sem um desafiante efetivo, real.

Essa mutável hegemonia hoje poderia mudar novamente, mas gigantes como a Universidade de Notre Dame, com seu orçamento de 11 bilhões, continuarão a se vincular a importantes e robustas revistas, think tanks, institutos, emissoras: porque o Partido Republicano “continua sendo o Partido de Deus” e suas posições firmes em questões “éticas” poderiam encontrar confirmação e centralidade se o campo radical reafirmar sua firmeza oposta e contrária sobre este terreno.

As palavras proferidas pela democrata Alexandra Ocasio-Cortez, “Joe Biden sabe o que os votos progressistas significaram para sua vitória”, não parecem indicar a escolha de um melting-pot fácil entre católicos democratas e esquerda radical. E relembrando leituras recentes, percebo que esta é a mesma recomendação formulada por Noam Chomsky, um nome cada vez mais de referência para determinados círculos do mundo da “esquerda” estadunidense.

Os republicanos têm o que é preciso para continuar a personificar a “intransigência”, graças ao trabalho realizado nas décadas passadas, e continuar sendo o Partido de Deus? Talvez então seja importante nos perguntarmos se na outra parte da política estadunidense buscam-se os recursos necessários para criar um verdadeiro bloco que reúna os “radicais” que contam com um idoso senhor católico para superar o grave momento de crise nacional, com aquele centro que escolheu porque foi garantido por Biden.

O raciocínio do professor Massimo Faggioli permanece obviamente aberto para o futuro, mas as posições nas várias áreas que apoiaram Biden parecem já querer puxá-lo para um lado, ou opor resistência pelo outro, em vez de lhe oferecer apoio para um novo projeto. “A dificuldade também é percebida em alguns silêncios sobre a primeira vice-presidente”, a jovem Kamala Harris. “Esperamos que entre em breve em todas as complexidades estadunidenses que terá que enfrentar num papel muito importante”, observa e, ao dizer, lembra ao seu interlocutor que afinal ela é da Califórnia, que é uma realidade, mas não toda realidade.

Joe Biden poderia contar com jovens fartos das velhas agendas? Sua história intervencionista é conhecida e pode decepcionar alguns ambientes que se encontram no terceiro mundo, ainda que a opção pelo multilateralismo lhe pareça provável, muito provável e possa constituir uma base sobre a qual construir bastante. Ao falar com ele, tem-se a impressão de que não é infundado o receio de que as agendas dos radicais e do “Partido de Deus” poderiam se encontrar numa oposição de radicalismos que dificulta uma renovação profunda do discurso político.

Ao ouvi-lo, torna-se natural perguntar se Joe Biden não seria aquele “velho democrata-cristão” que, quando disponível, também aqui poderia aparecer como garantia de porto seguro aos olhos de muitos, mas que necessita de disponibilidade e visões nos vários campos culturais para construir sobre a desradicalização do discurso político atual. Para sair dos atoleiros do presente, o idoso Joe Biden representou o máximo de serviço que podia e possibilitou uma agregação que, de defensiva, provavelmente agora precisaria se confrontar com a vontade de se tornar propositiva e não apenas autoafirmativa.

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