Carta de Paris: Nossa casa está em chamas

Por Leneide Duarte-Plon*

Um documentário com o cacique Raoni e o vídeo ”Ecocídio” denunciam na França o crime contra três ecossistemas vitais para o planeta. Os povos autóctones dependem mais que nunca da mobilização internacional

« Eu prefiro morrer lutando ao lado dos índios em defesa de suas terras e seus direitos do que viver para amanhã vê-los reduzidos a mendigos em suas terras. »

A frase de Apoena Meireles, ex-presidente da Funai, assassinado em outubro de 2004, foi premonitória. Interesses de mineradores ordenaram seu assassinato poupando-o de ver o atual espetáculo de desolação, incêndios e invasões de terras indígenas.

A Covid vem acelerando o genocídio indígena, facilitando o trabalho dos mineradores e madeireiros.

« Nossa casa está em chamas e estamos olhando para outro lado”.

Esta advertência de Jacques Chirac na abertura de seu discurso na IVa Cúpula da Terra, em 2002 em Johannesburg, na África do Sul, ficou gravada na memória de milhões de franceses e hoje, mais do que nunca, ecoa em nós.

A Amazônia, o Pantanal e o Cerrado estão sendo destruídos pelo fogo criminoso e a maioria dos habitantes da terra segue vivendo como se isso não fosse uma catástrofe planetária, para o clima, para a fauna e para os povos da floresta.

A Agência espacial informou que os satélites detectaram mais de 32 mil focos de incêndio na maior floresta tropical da terra. Com essa informação e a citação de Chirac tem início o belo e sombrio documentário « Raoni, o guardião da Amazônia », apresentado por Laurent Delahousse no canal público francês France2, no domingo, 18 outubro.

A estrela do documentário é o próprio chefe caiapó, que escapou da Covid19 e que conduz, com a determinação de sempre, a reportagem do início ao fim.

Raoni é acompanhado por uma jovem antropóloga francesa, que fala a língua caiapó e foi adotada como filha branca pelo cacique e por toda sua família. Em uma viagem de carro para chegar à longínqua aldeia, Raoni vai apontando para o campo totalmente desmatado e dizendo : « Isso tudo era floresta ».

A mata virgem virou cerrado.

O grito de socorro de Raoni vai, sem dúvida, ecoar na França, onde o chefe caiapó foi recebido por todos os presidentes franceses desde François Mitterrand até Emmanuel Macron, passando por Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande.

Ecocídio no Brasil

Na mesma semana, na quarta-feira, 21 de outubro, um coletivo de brasileiros e franceses de Paris se reuniu na Sala Krajcberg para exibir um vídeo-manifesto « Ecocídio » feito durante a « Vigília contra o ecocídio brasileiro » que aconteceu aos pés da Basílica do Sacré Cœur, em Montmartre. A vigília teve como objetivo denunciar os incêndios criminosos na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Esses três ecossistemas essenciais para o equilíbrio do clima do planeta estão queimando há um ano.

Mentiras atribuindo aos índios e caboclos a responsabilidade dos incêndios foram lançadas na Assembléia Geral da ONU pelo presidente bufão do Brasil. Povos que vivem da floresta, que a preservam e a defendem de todas as ameaças há centenas de anos teriam enlouquecido e tocado fogo em seu próprio habitat! Além deles, as ONG que defendem o meio ambiente, seriam também responsáveis pelo incêndio, segundo o president de extrema-direita brasileiro.

Precisa ser mais insano que quem acusa para levar a sério essas « informações » …

Segundo o Greenpeace, de um ano para cá já se destruiu no Brasil 9.205 Km2, o equivalente a seis vezes a cidade de São Paulo. De 2019 até hoje a situação se agravou a cada mês.

Para marcar a indignação e a tristeza de ver destruídos três dos maiores ecossistemas do mundo um grupo de franco-brasileiros resolveu promover a vigília que se transformou em vídeo. O evento foi concebido por Marcia Camargos, Gabriella Scheer e Daniela Cruz-Castro.

De velas nas mãos, vestidos de preto e portando máscaras pretas, os participantes da vigília informam sobre os incêndios criminosos nos três ecossistemas e dizem trechos da peça de João Cabral de Melo Neto, « Morte e Vida Severina ».

A « Vigília contra o ecocídio brasileiro » foi organizada por diversas associações e coletivos de resistência : Association Lettre Océan, Espace Krajcberg; Alerte France-Brésil ; Ubuntu Collectif Audiovisuel; Md18 Officiel ; Femmes de la Résistance; Autres Brésils et RED-BR. Faziam parte da vigília um grupo de escritores, cineastas, músicos, artistas plásticos e jornalistas, além de professores universitários franceses e brasileiros.

No Espaço Krajcberg, em Montparnasse, onde uma exposição permanente mostra as esculturas do artista engajado feitas de troncos de árvores, a exibição do vídeo foi seguida de um debate apresentado pela jornalista Maria Luisa Souto Maior com uma fala da escritora Marcia Camargos, da cineasta Liliane Mutti, de Francine Prévost, da ONG Nature Rights – engajada na preservação e transmissão da identidade cultural dos povos autóctones e na defesa de seus direitos. O cantor, jornalista e escritor Frédéric Pagès também falou da destruição dos três ecossistemas.

No Espaço Krajcberg, pôde-se ver ou rever as obras do brasileiro de origem polonesa que com sua arte denunciava a destruição do meio ambiente pelo homem.

Em outro ambiente do Espaço Krajcberg, uma pequena exposição de fotos de Sebastião Salgado mostra a reconstituição da floresta nativa de uma parte do Vale do Rio Doce. Neste vasto território devastado, Lélia e Sebastião Salgado replantaram 2 milhões e 700 mil espécies nativas, devolvendo à terra seu aspecto de antes do desmatamento e da destruição da Mata Atlântica. As fotos de Salgado mostram a evolução do projeto.

Apoena Meireles assassinado pela causa indígena

Neste mês de outubro, Hugo Meireles escreveu um texto para relembrar seu tio Apoena Meireles, ex-presidente da Funai e indigenista, filho do grande indigenista Chico Meireles.

Apoena foi assassinado a bala, em 9 de outubro de 2004, aos 55 anos, em Porto Velho, Rondônia numa operação disfarçada de crime crapuloso. Ele saía de um caixa eletrônico quando seu assassino se aproximou e disparou. O jovem de 17 anos foi preso mas fugiu da prisão.

Para entender o verdadeiro motivo da morte do indigenista, deve-se sabar que Apoena Meireles era o coordenador da « Operação Roosevelt », implantada em setembro de 2004, para fazer a mediação do conflito envolvendo garimpeiros e índios, em Espigão do Oeste, perto do território dos Cinta Larga, terra rica em diversos minérios, sobretudo diamantes.

Apoena fora enviado à região para estudar a regulamentação da exploração mineral e proteger os índios e suas terras das frequentes invasões.

O próprio Apoena Meireles tinha sangue indígena por sua mãe, índia aculturada, que seu pai Francisco Meirels conheceu na cidade de Porto Velho. Apoena nasceu numa aldeia indígena dos Xavante, em Mato Grosso e recebeu o nome do cacique, Àpow%u013, que significa « homem que enxerga longe ».

O indigenista participou do contato com os índios Suruí (1969), os Uru Eu Au Au (1981), em Rondônia, além dos Zoró, de Mato Grosso (1977) e os Cinta Larga (1978) dos dois estados.

Hoje, os indígenas já não se sentem protegidos pelos servidores públicos da Funai, diferentemente de quando homens como Chico Meireles e Apoena Meireles eram intransigentes defensores da causa indígena.

O texto de Hugo Meireles informa que, quando presidente da Funai, Apoena enfrentou, em 1981, a intrusão dos missionários nas aldeias indígenas. Ele defendeu a decisão do povo Gavião Ikolen, de Ji Paraná, ao providenciar a retirada de religiosos protestantes da área indígena, após uma divisão interna provocada pela festa tradicional de 1979.

Sob o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, os índios brasileiros e os ecossistemas vitais para a sobrevivência da humanidade dependem da mobilização internacional para interromper todo tipo de destruição e de desrespeito às leis de proteção às terras indígenas.

*Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.

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