Juliette Gréco: adeus à eterna musa de Saint-Germain-des-Prés

Por Leneide Duarte-Plon*

Ouvir a musa de Saint-Germain no Hotel Lutétia respondendo às minhas perguntas e cantarolando “Juazeiro” (de Luiz Gonzaga) e “Sapato de Pobre” (de Luiz Antônio e Jota Junior) foi uma experiência surrealista.

Quando ela começou a cantar em português, com ligeiro sotaque, as músicas que eram sucesso na época que visitou o Rio demorei a crer que era Juliette Gréco quem dizia: “Sapato de pobre é tamanco, almoço de pobre é café, é café”. Depois ela emendou em « Juazeiro ».

« Encontrei poetas e intelectuais muito interessantes. E todos falavam francês », contou.

Gréco levou uma vida trepidante: fez cinema com Jean Cocteau, e namorou o jazzman Miles Davis. Nos anos 50, em Hollywood, estrelou filmes de John Huston e Orson Welles. Viveu em Hollywood com o produtor e magnata Darryl Zanuck.

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Carta de Paris: Juliette Gréco: adeus à eterna musa de Saint-Germain-des-Prés

Aos 82 anos, ela relembrou sua temporada brasileira: ”Amo o Brasil, gosto da música, das pessoas, da loucura”

O existencialismo perdeu a musa que ajudou a fabricar o mito de Saint-Germain-des-Prés. Juliette Gréco morreu dia 23 de setembro, aos 93 anos, no sul da França, onde tinha uma casa.

Em outubro de 2009, entrevistei-a para a « Folha de São Paulo » no hotel Lutétia, onde ela costumava receber jornalistas. Aos 82 anos, celebrando 60 anos de carreira, ela estava lançando o disco « Je me souviens de tout », com letras de Maxime Le Forestier, Brigitte Fontaine, Miossec, Abd Al Malik e Olivia Ruiz.

Quando fui encontrá-la conhecia o mito. Desde jovem, tinha aprendido a admirar seu estilo, seu repertório, sua classe e seu engajamento nas causas da esquerda francesa. Gréco foi o símbolo da liberdade e da rebeldia das mulheres do pós-guerra. Cantou canções inesquecíveis de Georges Brassens, Jacques Brel, Léo Ferré e Serge Gainsbourg, muitas feitas para ela.

Seus fãs se identificavam com a elegância de seu repertório. No início da carreira, entoava letras de poetas e escritores como Raymond Queneau, François Mauriac e Sartre. Sua turma era formada por existencialistas e intelectuais de Saint-Germain dos quais ela era a mais jovem.

Mais tarde, teve uma amizade amorosa com Françoise Sagan, com quem costumava passar o verão em Saint-Tropez.

Gréco nunca viveu da glória passada. Soube se renovar e acompanhar o mundo e as novas formas de expressão artística. Nas últimas décadas, gravou músicas de jovens compositores franceses como Benjamin Biolay e Abd al Malik mas também navegou por canções de Caetano Veloso, João Bosco e Julien Clerc, menos distantes de sua geração.

Do teatro à canção

A musa dos intelectuais de Saint-Germain-des-Prés começou a carreira como atriz de teatro. Em 1949, para a reinauguração do cabaré “Le boeuf sur le toit”, Gréco estreou como cantora, interpretando três canções compostas por Joseph Kosma, com textos de poetas indicados por Jean-Paul Sartre, que a estimulou a subir ao palco para cantar.

Juliette Gréco em 1957 (The Koball Collection/Aurimages)

Desde então, sua voz rouca e grave interpretou, com sensualidade e elegância, os compositores que cantaram o amor, os encontros e desencontros, o trágico e o absurdo da existência.

Um de seus maiores sucessos foi a canção “Déshabillez-moi”, em que ela ensina como seu homem deve despi-la. Em vídeos da canção, que podem ser vistos na internet, ela dá uma aula de sensualidade maliciosa sem perder a classe.

No Brasil, sapato de pobre e Juazeiro

Na longa conversa que tivemos, a cantora provou que o título do disco não mente: lembrava de tudo, inclusive de um brasileiro apaixonado que a pediu em casamento durante uma temporada carioca, em 1952. Ele se chamava Henrique Tam. « Devia ser de origem sueca », ela diz.

Ela fora ao Rio com o show “April in Paris”, que deveria durar 15 dias na boate Vogue. Ficou lá três meses.

“É um país que eu amo. Gosto da música, das pessoas, da loucura.”

Parte dessa loucura ela confirmou ao ver a multidão que queria vê-la.

Haviam dito que os existencialistas andavam nus. Devem ter ficado decepcionados quando ela apareceu no palco da boate “Vogue” toda coberta por um vestido preto, sua marca registrada. Era um modelo feito para ela pela grande estilista Elsa Schiaparelli.

Ela informa que a boate pertencia ao barão Stuckart, « que devia ser um velho nazista refugiado no Brasil ».

Ouvir a musa de Saint-Germain no Hotel Lutétia respondendo às minhas perguntas e cantarolando “Juazeiro” (de Luiz Gonzaga) e “Sapato de Pobre” (de Luiz Antônio e Jota Junior) foi uma experiência surrealista.

Quando ela começou a cantar em português, com ligeiro sotaque, as músicas que eram sucesso na época que visitou o Rio demorei a crer que era Juliette Gréco quem dizia: “Sapato de pobre é tamanco, almoço de pobre é café, é café”. Depois ela emendou em « Juazeiro ».

« Encontrei poetas e intelectuais muito interessantes. E todos falavam francês », contou.

Gréco levou uma vida trepidante: fez cinema com Jean Cocteau, e namorou o jazzman Miles Davis. Nos anos 50, em Hollywood, estrelou filmes de John Huston e Orson Welles. Viveu em Hollywood com o produtor e magnata Darryl Zanuck.

De volta à França, descobriu novos talentos da música. Mais tarde, casou-se com o ator Michel Piccoli. Desde 1989, era casada com o pianista e compositor Gérard Jouannest, que morreu em 2018.

De Miles Davis, que conheceu em 1949, me disse:

“Você sabe o que é paixão? Isso existe! A gente se olhou e se descobriu”. Ela garantiu que esse amor durava até o dia em que me falava.

Gréco nunca foi popular como Edith Piaf.

Ela era cult.

*Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.

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