Memórias do A.I – 5

Lincoln Penna*
Há 52 anos acabara de voltar de uma viagem à Europa, onde estive em Moscou e Budapest retornando via Montevidéu. No dia do fatídico Ato Institucional número 5 percebi pelo seu conteúdo que a euforia de ter ludibriado a repressão se esvaíra rapidamente. Era preciso tomar mais cautelas do que as que já vinha tomando. Mantive minimamente as atividades docentes para dar continuidade a uma normalidade agora tão somente aparente. O cerco, sabia, se encurtara e mesmo assim demorou aproximadamente cinco meses até ser preso e levado à detenção na Ilha das Flores, sob administração do Primeiro Comando da Marinha, onde funcionava o temível CENIMAR, órgão encarregado da informação, mas sobretudo da repressão nos tempos da ditadura.
 Antes da prisão, tinha me candidatado a bolsa de estudos de doutorado na França, através do órgão francês que concedia cotas de bolsas para estudantes da África, Sudeste Asiático e América do Sul, numa política que o então presidente general De Gaulle adotara para que a cultura francesa se mantivesse presente nesses territórios, principalmente no que se chamara de Terceiro Mundo. Bolsa concedida logo no início do ano seguinte ao A.I-5, só vim a tomar conhecimento pouco tempo antes da prisão. O que era um desejo acadêmico tornara-se, na ocasião, uma oportunidade para escapar da detenção, o que, por sinal, aconteceu, porque tornara-me potencialmente cidadão francês ou sob a guarda do Estado daquele país.
 Tanto antes como durante a minha permanência detido, eu tinha informações e constatei pelo número de presos que chegavam à Ilha, que o novo Ato recrudescera duramente a repressão. Assim, da ameaça à perda da liberdade que me acompanhara e a todos quanto exerciam de alguma maneira formas de oposição ao regime instalado em 64, chegara finalmente à perda da liberdade. Esta é uma sensação indescritível, porque se de um lado essa perda nos limita e tolha nossos movimentos; por outro lado, ela nos interioriza. Ou seja, nos faz valorizar como seres pensantes capazes de reunir forças diante das adversidades. E foi assim que me senti passada a primeira semana detido e os cerca de trinta dias na solitária.
 A ausência de informações sobre os nossos entes queridos, da total falta de notícias do que se passava na vida do país, só restava o exercício de fortalecimento do instinto de sobrevivência, o reforço da autoestima e a nos fazer, por exemplo, aceitar uma alimentação que mais se assemelhava a de porcos. O feijão era bebido porque não havia sequer caroço. Mas isso era o de menos, uma vez que havia sempre a ameaça de que dias piores viriam. Como vieram, tanto fora quanto dentro da prisão.
 Querer, como desejam os imbecis que cortejam e apoiam o capitão processado e livre para dar oportunidade a turma do porão para ir à forra de sua derrota nos tempos do Geisel, é ou desconhecer o que foi o A.I-5, ou querer, como é o caso dos mais fanatizados, a volta desse regime de terror, que só quem o viveu tem condições de testemunhar. E o faço aqui e agora, nesta data que precisa ser lembrada para no mínimo advertir os incautos, os ignorantes que ainda duvidam dos muitos relatos acerca do que esse país conheceu quando do auge da ditadura empresarial e militar.
 Mas, não há dia após um outro, com uma noite no meio, para que façamos dos retrocessos estímulo para a reconquista das liberdades. Sem estas, não há democracia, não há direitos adquiridos e sustentados e não existem possibilidades para que se consiga a plena instauração do verdadeiro Estado de Democrático de Direito, que consiste na igualdade, pois não pode existir liberdade sem justiça social.
*Historiador, professor da UFRJ e Diretor do IBEP
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