“Minha conversão ecológica

A tradução do original italiano, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 03-09-2020, é de Luisa Rabolini.

No dia de ontem, 03-09-2020, ao receber em audiência um grupo de personalidades francesas comprometidas com a luta contra a emergência climática e que colaboram com a Conferência Episcopal Francesa sobre o estudo e a implementação da Laudato Si’, depois de entregar o discurso, previamente preparado, aos participantes do encontro, falou espontaneamente, narrando a sua conversão ecológica.

Segundo Francisco, “a ternura é como a esperança. Como diz Péguy, são virtudes humildes. São virtudes que acariciam, que não afirmam … E creio – gostaria de ressaltar – que, na nossa conversão ecológica, devemos trabalhar sobre essa ecologia humana; trabalhar sobre a nossa ternura e a capacidade de acariciar. A capacidade de acariciar, que é algo do viver bem em harmonia”.

A tradução do original italiano, publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 03-09-2020, é de Luisa Rabolini.

Eis o discurso de improviso.

Agradeço a todos vocês pela visita e agradeço ao Presidente do Episcopado.

Vejo que cada um de vocês tem a tradução do que vou dizer. E parte da conversão ecológica é não perder tempo. E por isso texto oficial vocês já têm. Agora prefiro falar espontaneamente. O original o entrego.

Eu gostaria de começar com um pedaço de minha história. Em 2007 aconteceu a Conferência dos Bispos da América Latina no Brasil, em Aparecida. Eu estava no grupo de dos redatores do documento final, e chegaram propostas sobre a Amazônia. Eu dizia: “Mas esses brasileiros, como enchem a paciência com essa Amazônia! O que a Amazônia tem a ver com evangelização?”. Este era eu em 2007. Depois, em 2015, saiu a Laudato Si’. Tive um percurso de conversão, de compreensão do problema ecológico. Antes eu não entendia nada!

Quando fui a Estrasburgo, na União Europeia, o Presidente Hollande enviou a Ministra do Ambiente, Ségolène Royale, para me receber. Conversamos no aeroporto… No começo um pouco, porque havia o programa a cumprir, mas depois, no final, antes de partir, tivemos que esperar um pouco e conversamos mais. E a senhora Ségolène Royale me disse o seguinte: “É verdade que o senhor está escrevendo algo sobre ecologia? – C’était vrai! – Por favor, publique antes do encontro de Paris!”.

Chamei a equipe que estava fazendo a encíclica – para que vocês saibam que eu não escrevi ela pessoalmente, foi uma equipe de cientistas, uma equipe de teólogos e todos juntos fizemos essa reflexão –, eu chamei essa equipe e disse: “Deve sair antes da reunião de Paris” – “Mas por quê?” – “Para fazer pressão”. De Aparecida a Laudato Si’ para mim foi um caminho interior.

Quando comecei a pensar nessa Encíclica, chamei os cientistas – um belo grupo – e disse a eles: “Digam-me as coisas que são claras e comprovadas e não hipóteses, as realidades”. E eles trouxeram essas coisas que vocês leem ali hoje. Depois, chamei um grupo de filósofos e teólogos [e disse a eles]: “Eu gostaria de fazer uma reflexão sobre isso. Trabalhem vocês e dialoguem comigo”. E eles fizeram o primeiro trabalho, depois eu fiz a minha intervenção. E, no final, a redação final foi feita por mim. Essa é a origem.

Mas quero ressaltar isso: do não entender nada, em Aparecida, em 2007, à Encíclica. Eu gosto de dar testemunho disso. Devemos trabalhar para que todos tenham esse caminho de conversão ecológica.

Depois veio o Sínodo da Amazônia. Quando fui para a Amazônia, encontrei muita gente lá. Fui a Puerto Maldonado, na Amazônia peruana. Conversei com as pessoas, com muitas culturas indígenas diferentes. Depois almocei com 14 de seus chefes, todos com as penas, vestidos como manda a tradição. Eles falavam com uma linguagem de sabedoria e inteligência muito alta! Não apenas de inteligência, mas de sabedoria. E então perguntei: “O que você faz?” – “Sou professor universitário”.

Um indígena que ali usava as penas, mas para a universidade ia com roupas como as nossas. “E você senhora?” – “Eu sou a responsável pelo ministério da educação de toda esta região”. E assim, um após o outro.

E depois uma jovem: “Sou estudante de ciências políticas”. E aqui vi que era necessário eliminar a imagem dos indígenas que vemos apenas com as flechas.

Descobri, lado a lado, a sabedoria dos povos indígenas, também a sabedoria do “bem viver“, como eles chamam.

O “bem viver” não é a doce vida, não, o não fazer nada, não. O bem viver é viver em harmonia com a criação. E nós perdemos essa sabedoria do bem viver.

Os povos originários nos trazem essa porta aberta. E alguns idosos dos povos originários do oeste do Canadá reclamam que seus netos vão para a cidade e pegam coisas modernas e esquecem as raízes. E esse esquecimento das raízes é um drama não só dos aborígenes, mas da cultura contemporânea.

E assim, encontrar essa sabedoria que talvez tenhamos perdido com muita inteligência. Nós – é um pecado – somos “macrocéfalos”: muitas das nossas universidades nos ensinam ideias, conceitos … Somos herdeiros do liberalismo, do Iluminismo … E perdemos a harmonia das três línguas. A linguagem da cabeça: pensar; a linguagem do coração: sentir; a linguagem das mãos: fazer. Que traz essa harmonia, que cada um pensa, o que sente e o que faz; que cada um sinta o que pensa e faz; que cada um faça o que sente e pensa. Esta é a harmonia da sabedoria. Não é nem um pouco da desarmonia – mas não digo isso em sentido pejorativo – das especializações. São necessários os especialistas, são necessários, desde que estejam enraizados na sabedoria humana. Os especialistas, desenraizados dessa sabedoria, são robôs.

Outro dia uma pessoa me perguntou, falando em inteligência artificial – temos um grupo de estudos de altíssimo nível sobre inteligência artificial no Dicastério da Cultura: “Mas a inteligência artificial poderá fazer tudo?” – “Os robôs do futuro poderão fazer tudo, tudo que uma pessoa faz. Mas exceto o quê? – eu disse – o que eles não poderão fazer? ”. E ele pensou um pouco e me disse: “Só há uma coisa que eles não poderão ter: ternura“. E ternura é como a esperança. Como diz Péguy, são virtudes humildes. São virtudes que acariciam, que não afirmam … E creio – gostaria de ressaltar – que, na nossa conversão ecológica, devemos trabalhar sobre essa ecologia humana; trabalhar sobre a nossa ternura e a capacidade de acariciar … Tu, com os teus filhos … A capacidade de acariciar, que é algo do viver bem em harmonia.

Além disso, há outra coisa que gostaria de dizer sobre a ecologia humana. A conversão ecológica nos mostra a harmonia geral, a correlação de tudo: tudo está correlacionado, tudo está em relação. Em nossas sociedades humanas, perdemos esse senso da correlação humana. Sim, existem associações, existem grupos – como o vosso – que se reúnem para fazer uma coisa … Mas estou me referindo àquela relação fundamental que cria a harmonia humana. E muitas vezes perdemos o senso das raízes, de pertencimento. O sentimento de pertença. Quando um povo perde o sentido de suas raízes, perde sua identidade. – Mas não! Somos modernos! Vamos pensar nos nossos avós, em nossos bisavós … Coisas antigas! – Mas há outra realidade que é a história; há a pertença a uma tradição, a uma humanidade, a um modo de viver … Por isso é muito importante hoje cuidar disso, cuidar das raízes da nossa pertença, para que os frutos sejam bons.

Por isso, hoje mais do que nunca, o diálogo entre avós e netos se faz necessário. Pode parecer um pouco estranho, mas se um jovem – vocês são todos jovens aqui – não tem o sentido de uma relação com os avós, o sentido das raízes, não terá a capacidade de levar adiante a própria história, a humanidade, e terá que acabar chegando a um acordo, a compromissos, com as circunstâncias. A harmonia humana não tolera os pactos de compromisso.

Sim, a política humana – que é outra arte e necessária – a política humana é feita dessa forma, com compromissos para que possa levar todos adiante. Mas a harmonia não. Se você não tiver raízes, a árvore não continuará. Há um poeta argentino, Francisco Luis Bernárdez – já morreu, é um dos nossos grandes poetas – que diz: “Todo lo que el árbol tiene de florido vive de lo que ten sepultado“. Se a harmonia humana dá frutos é porque tem raízes.

E por que dialogar com os avós? Posso falar com os pais, isso é muito importante! Falar com os pais é muito importante. Mas os avós têm algo mais, como um bom vinho. O bom vinho quanto mais envelhece, melhor fica. Vocês franceses entendem dessas coisas, não é? Os avós têm essa sabedoria. Sempre fiquei impressionado com aquela passagem do Livro de Joel: “Os avós sonharão. Os velhos sonharão e os jovens profetizarão”. Os jovens são profetas. Os velhos são sonhadores. Parece o contrário, mas é assim! Desde que se falem. E esta é a ecologia humana.

Sinto muito, mas temos que terminar, porque o Papa também é um escravo do relógio! Mas quis contar esse testemunho da minha história, essas coisas, para seguir em frente. E a palavra-chave é harmonia. E a palavra-chave humana é ternura, a capacidade de acariciar. A estrutura humana é uma das muitas estruturas políticas que são necessárias. A estrutura humana é o diálogo entre os idosos e os jovens.

Agradeço o que vocês estão fazendo. Gostei de enviar este [discurso escrito] para o vosso arquivo – vocês o lerão mais tarde – e dizer, do fundo do coração, o que sinto. Pareceu-me mais humano. Eu vos desejo o melhor. Et priez pour moi. J’en ai besoin. Ce travail n’est pas facile. Et que le Seigneur benisse vous tous.

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