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O espírito de 19

Maria Luiza Busse*

A diplomacia chinesa deste século XXI segue herdeira do espírito de 19

Já disse aqui certa vez que falar da China é tão quanto falar de Madureira porque “o difícil é saber terminar”, como diz a letra do maravilhoso samba-exaltação de Arlindo Cruz. Mas vamos tentar.

Tem causado surpresa a ofensiva diplomática sobre o palavreado farsante e violento proferido contra o povo chinês pela família nazista que ocupa o Palácio do Planalto. A China é mais conhecida pelo seu perfil comportamental pacífico e prudente, no sentido em que esses termos são entendidos pela cultura Ocidental. Mas há um marco manifesto de 101 anos, dentro dos seis milênios desta civilização, que pode desmitificar esse olhar e restabelecer um para além do lugar comum.

Tratado de Versalhes, fim da I Guerra Mundial. Os artífices do vasto tratado que recebeu do marechal Foch o comentário de estar muito mais para armistício do que para a paz efetiva, concediam aos japoneses as regiões antes invadidas pelos alemães no território chinês. Bastou para explodir o movimento 4 de maio de 1919. Os estudantes de Pequim foram às ruas e disseram ‘Não’ à assinatura. O fato alterou o proceder da diplomacia chinesa e está retratado de maneira exemplar no filme de produção nacional ‘ Bu’, que é o modo corrente e mais afirmativo da língua chinesa dizer ‘Não’. Numa tremenda reação patriótica, os jovens não mais aceitaram a humilhação que se perpetuava desde as guerras do ópio, a política das canhoneiras e dos tratados desiguais que faziam da China um bordel multinacional. A partir do 4 de Maio de 1919, a China inaugurou a formação de correntes políticas, diplomáticas e literárias que se apropriaram dos valores da democracia liberal burguesa para cumprir o que mais adiante Mao Zedong declarou ser a tática precisa e necessária para conhecer o inimigo e combatê-lo em profundidade.

Com o ‘bu’ para Versalhes, o 4 de maio criou a base subjetiva, intelectual e cultural para a revolução de 1949. Foram 30 anos de aprendizado de como confrontar um opressor e não se render ao que venha dele. A diplomacia chinesa deste século XXI segue herdeira do espírito de 19.

*Jornalista há 47 anos e Semiologa. Professora Universitária aposentada. Graduada em História, Mestre e Doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com dissertação sobre texto jornalístico e tese sobre a China. Pós-doutora em Comunicação e Cultura, também pela UFRJ,com trabalho sobre comunicação e política na China

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