“O mercado selvagem fracassou”. Entrevista com Pankaj Mishra

REVISTA IHU ON-LINE: A entrevista com Pankaj Mishra é de Carlo Pizzati, publicada por La Repubblica. A tradução é de Luisa Rabolini

Pankaj Mishra define seu Bland Fanatics como um livro gramsciano. É uma coletânea de ensaios críticos contra os “evangelistas do liberalismo desacreditado“, os “banais fanáticos” que, segundo o teólogo Reinhold Niebuhr, consideram “as conquistas altamente contingentes das civilizações ocidentais como a forma final e a norma da existência humana”. O livro do intelectual indiano é uma análise da conhecida crise do liberalismo em um mundo onde apenas 5,7% da população mundial vive em democracias completas, de acordo com o Democracy Index, e onde uma em cada duas nações está insatisfeita com a democracia (Pew Research).

A entrevista com Pankaj Mishra é de Carlo Pizzati, publicada por La Repubblica. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você declarou que o Reino Unido e os EUA não são verdadeiras democracias. A verdadeira democracia envolve discussão, persuasão, um debate que leva a um compromisso, não se digladiar nas redes sociais. Quando você fala que é preciso “uma boa dose de seriedade”, o que quer dizer?

Hoje precisamos de mais democracia, não de menos democracia. Porque a democracia trabalha com noções compartilhadas como um senso de solidariedade e de comunidade, algo ausente há muito tempo. As sociedades em todo lugar, e não apenas no Ocidente, investiram demais na ideia de hiperindividualismo, como se a energia e as habilidades empresariais de um indivíduo fossem suficientes para criar uma sociedade funcional. Esperava-se que os indivíduos, ocupados a perseguir seus próprios interesses pessoais, contribuíssem para o bem comum. Assim, como num passe de mágica …

…. Os “mil pontos de luz” de que o presidente Bush pai falava ao apostar no voluntariado?

Exato. Essa ideologia nascida na década de 1980 nos EUA e no Reino Unido provou ser completamente letal, como vemos agora com a pandemia. Por “seriedade” quero dizer recuperar uma ideia de solidariedade e compaixão sem a qual as sociedades, em todo lugar, não são sustentáveis. A noção de que a ganância seja de alguma forma positiva, de que a realização dos interesses privados resulte no bem comum, bom, essas ideias, que se tornaram predominantes nos últimos trinta anos, são incrivelmente perigosas. “Bland Fanatics” acusa “a desajeitada amigocracia no poder”, identificando o problema da” anglobalização enraizada na supremacia branca que leva à pobreza institucionalizada.

Você realmente acredita que é o fim do século anglo-americano?

A partir da década de 1980, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha tornaram-se extremamente poderosos cultural e ideologicamente exatamente quando suas economias estavam começando a declinar. De fato, havia um crescimento de riquezas privadas. A mídia ficou tão distraída com essa nova prosperidade que ignorou o fato de que a renda real estava encolhendo, os salários estagnavam, a classe média começava a sofrer. O New York Times, o Guardian, o Economist e o Financial Times adquiriram uma influência global sem precedentes como porta-vozes das ideologias anglo-americanas da desregulamentação, da privatização e do sonho americano que, na opinião deles, todos deveríamos ter seguido. E aqui está a tempestade perfeita: um enorme consenso político em Washington e Londres, com o apoio do Banco Mundial e do Fundo Monetário junto com as mídias, verdadeiras animadoras de torcida do consenso global ao prescrever às outras sociedades como viver à maneira anglo-americana. Tudo isso agora ruiu.

E como?

Esse modelo provou ser catastrófico. Acima de tudo, o abandono do estado social. Não apenas deixando que degenerasse, mas também fomentando seu declínio dizendo: “Não precisamos dele porque cria gerações de vagabundos e aproveitadores e, portanto, devemos eliminá-lo.” É claro que, na ausência de um sistema de saúde decente, a pessoa se torna enormemente vulnerável a uma praga como a Covid-19. Mas as vitórias de Trump e Brexit já haviam demonstrado o resultado desastroso de vinte anos de desregulamentação e privatização, bem como as revoltas populistas na América Latina, o fracasso de Yeltsin e a tomada do poder de Putin … vimos a ascensão de vários autocratas em todo o mundo, incluindo a Índia. Agora o desastre chegou nos países exportadores dessas ideologias: a Angloamérica. Mas não vejo possibilidade de inversões de tendência, porque a mídia está nas mãos das mesmas pessoas que defenderam a desregulamentação, a privatização e o Consenso de Washington durante todos esses anos. Eles sonham em voltar às coisas como eram.

Se a “bolha da mídia” é uma causa que contribui para esse sistema competitivo, o pior para combater a Covid 19, a própria mídia poderia mudar as coisas?

Não. Como escritor, não acredito que meu papel seja o de encontrar receitas. Aquelas fornecidas até o momento, sem nenhuma atenção às circunstâncias locais de uma região específica, ou aos fatores nacionais, são exatamente o que nos trouxe à situação atual. Foi essa arrogância de pessoas sentadas bem distante, em Washington e em Londres, ocupadas em prescrever soluções sem ter a menor ideia de como é a vida em lugares como a Índia, mas insistindo que o livre mercado deve ser o caminho do futuro, ou destruindo os sindicatos. Devemos abandonar esse modelo prepotente que oferece respostas globais e nos focar nas experiências reais para encontrar as soluções que emergem dessas mesmas experiências.

Solidariedade, colaboração, diálogo construtivo. Parece uma receita simples. Não estaria talvez faltando a ética?

E a compaixão. Por que precisamos de compaixão? E de solidariedade social? Era inútil no mercado onde, em teoria, tínhamos que competir uns com os outros. Por tempo demais a ideia de mercado tomou o lugar de nossa imaginação ética. É hora de redescobrir o que foi a luz que orientou grande parte da humanidade na história até o período do pós-guerra, onde os governos europeus em toda parte, na ItáliaAlemanha e França, não importa se você vinha do lado certo ou errado do conflito, se você era um democrata-cristão. ou um social-democrata, colaboraram em um esforço coletivo para recriar um sentido de sociedade e de solidariedade por meio das reformas e do Estado social introduzidos após 1945. Encontramos, hoje, vestígios dessa tradição na reação italiana e alemã à atual pandemia. Mas esse espírito se enfraqueceu muito. Não podemos esperar que os mecanismos impessoais dos mercados nos tragam prosperidade, dignidade e segurança. Precisamos reanimar o sentido de cuidado com as outras pessoas, cultivar a atenção cívica e a identidade cívica para acabar com a atual crise da democracia.

Veja outras notícias
Entrevistas
Menu