O mundo das finanças e a pós-pandemia: “A sustentabilidade é um direito humano”

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Vaticano e mundo das finanças juntos em prol dos investimentos éticos na pós-pandemia: “A sustentabilidade é um direito humano”. O cardeal Ravasi e o Pe. Zampini participaram do congresso organizado pelo Südtirol Bank, em colaboração com as mídias vaticanas, cinco anos após a Laudato si’: “As finanças devem ser um fim compartilhado, e não um apanágio para poucos privilegiados”.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada em Il Secolo XIX, 13-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Será que algum dia será possível derrubar do trono do sistema econômico e financeiro aquilo que o papa chama de “deus dinheiro”, para finalmente fazer subir a pessoa humana? Aprendemos alguma lição com a crise de 2007 e com a recente crise causada pela Covid-19? É utópico pensar em construir um sistema sustentável, que respeite o ambiente e a economia social?

Interrogações cruciais em tempos incertos como os atuais, marcados pelo coronavírus, sobre os quais se interrogaram prelados e expoentes do mundo financeiro, em um congresso nessa terça-feira, 13, na Sala Marconi (Rádio Vaticano), organizada pelo gerente de divisão do Südtirol BankAlfonso Meomartini, em colaboração com as mídias vaticanas.

“Cinco anos após a Laudato si’, investimentos éticos para um mundo sustentável” foi o título do encontro – transmitido em streaming – que, à luz da encíclica Laudato si’ e da mais recente, Fratelli tutti, tentou dar uma resposta a desafios e interrogações velhos e novos, reforçando também a relação desejada pelo Papa Francisco entre o mundo das finanças e a Igreja, depositária do “grande tesouro” que é a doutrina social.

“Há uma mentalidade que está mudando, principalmente entre os jovens, que esperam respostas e compromissos concretos”, explicou Meomartino. “Por isso, é significativo discutir isso no Vaticano, para fazer um balanço do caminho percorrido por nós, operadores financeiros, e também receber contribuições de quem sabe olhar mais longe do que nós.”

Em nome da Santa Sé, diante de um público composto por gestores do AISM LuxemburgoNatixisPramericaJ. Lamarck, intervieram o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, e o Pe. Augusto Zampini, secretário adjunto do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, à frente de uma das forças-tarefa vaticanas para o pós-pandemia.

Vários professores e empresários também ofereceram a sua experiência de “melhores práticas” aplicadas no campo da ética econômica.

Como ilustre biblista, Ravasi partiu dos imperativos bíblicos de “cultivar e preservar, subjugar e dominar”, para refletir sobre o conceito de “sustentabilidade”, que, disse, “não é apenas um fenômeno técnico, mas também entrou entre os direitos humanos da quarta geração”.

“O empresário – explicou o cardeal – é aquele que guia a evolução, que está atento em olhar mais além do rebanho. Subjugar, por outro lado, é o verbo do agricultor que lavra a terra para torná-la fértil.”

Depois, uma advertência para o mundo das finanças: “Se você arruinar o quadro em que estamos imersos, não só ferirá um plano físico, mas ferirá completamente a existência do planeta e da nossa existência”.

Em seu discurso, o cardeal – usando máscara o tempo todo – citou o filósofo francês protestante Paul Ricoeur: “Vivemos em uma época em que a bulimia dos meios corresponde à anorexia dos fins”. E lembrou também as palavras do prêmio Nobel Amartya Sen: “A economia deve voltar a ser uma disciplina humanística, que tem como base a filosofia moral”.

“Não se deixem conquistar pelo esplendor e pelo poder da gestão”, foi o convite de Ravasi aos presentes, “recordemos sempre que o trabalho não é simplesmente um recurso, mas também a dignidade de uma pessoa.”

Por sua vez, o Pe. Zampini articulou a reflexão a partir de uma curiosa metáfora que, a seu ver, sintetiza a situação atual do mundo: “Dois boxeadores em um ringue. Um é a Covid-19, o outro é o mundo: os dois lutam entre si. Mas, ao lado do ringue, há muitos outros boxeadores prontos para lutar, incluindo as mudanças climáticas, que dizem: ‘Vou esperar, depois entro no ringue e destruo tudo’”.

O ex-advogado que se tornou monsenhor traçou uma análise da crise econômica e financeira dos últimos anos: “Tinha que ser a oportunidade para redesenhar os critérios éticos na base da crise, mas a resposta financeira foi insatisfatória, e os critérios não mudaram, pelo contrário, se revigoraram”.

Em síntese, a mesma denúncia expressada pelo papa na Laudato si’: “É importante ler a encíclica para se dar conta de como aprendemos pouco com a crise financeira mundial de 2007-2008, que poderia ter sido uma oportunidade para desenvolver uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual”, escreveu Andrea Tornielli, diretor editorial das mídias vaticanas, na apresentação do congresso.

A sugestão de Zampini é projetar a reflexão para o futuro, particularmente sobre o papel das finanças, que “não são um fim em si mesmas, mas sim um instrumento a ser posto a serviço da coletividade”.

“Devemos olhar para os objetivos”, afirmou. “Isso não foi feito na crise anterior à atual emergência sanitária e deve ser feito agora. Este é o momento.”

Entre os objetivos urgentes para o pós-Covid-19, o religioso elencou “a regulamentação dos mercados financeiros”, “incentivos e concessões para o emprego” e, acima de tudo, a necessidade de se comprometer internacionalmente para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável fixados pela ONU para a agenda 2020-2030.

“É impensável – concluiu – uma finança que não tenha uma recaída social sobre a comunidade: este é o momento para promover bons operadores financeiros, para que as finanças sejam um fim compartilhado e não apanágio para poucos privilegiados.”

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