Philip Yang: Por uma nova política

Philip Yang*
Caros/as,
Compartilho em anexo um artigo interessante do Valor Econômico que trata da PEB diante da disputa entre EUA e China. É um bom tema para monografia.
Abraços
Luiz F. Taranto
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Philip Yang: Por uma nova política externa
Na consolidação do “século asiático”, precisamos indagar qual direção deve ser dada à nossa
diplomacia

Por Philip Yang — Para o Valor, de São Paulo

“O que é o mais difícil de tudo? Ver com seus olhos o que seus
há um dia

 

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olhos colocam diante de você.” (Goethe)

Introdução: a necessária mudança de rumos
Grandes transformações da ordem mundial requerem grandes
ajustes de política externa. Foi assim nas primeiras décadas do
século XX. Deverá ser assim também nas primeiras décadas do
século XXI.

Com o deslocamento do eixo de poder da Europa para os EUA, o
Brasil de Rodrigues Alves (1902-1906) mudava a orientação de sua
diplomacia, construindo uma aproximação a Washington. Hoje,
neste momento em que assistimos à emergência e consolidação
do “século asiático”, precisamos (i) indagar qual direção deve ser
dada à diplomacia brasileira e (ii) buscar entender — à luz do
declínio econômico relativo do Ocidente — qual tipo de inserção
internacional desejamos construir para o país.
Enfatizo o verbo construir, pois o desenho de novas políticas
demanda um ato volitivo, que nos arranque das forças inerciais,
das rotinas do cotidiano, de determinismos vários, das tradições e
molduras analíticas que inadvertidamente tomam conta de nossas
visões de mundo.

No início do século XX, a aproximação com os EUA derivou de ação
voluntária e proativa de nossa chancelaria (1). Tivéssemos adotado
postura burocrática, presa ao hábito ou à tradição, a guinada não

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teria ocorrido. O governo americano não tinha grande entusiasmo
por qualquer vinculação especial com o Brasil, e o condutor do
estreitamento de laços com os Estados Unidos pelo lado brasileiro,
o Barão do Rio Branco (1845-1912), precisou romper com sua visão
de mundo tradicional de inclinação europeísta para de fato forjar
uma política a!nada com os novos tempos e condizente com
nossos interesses nacionais permanentes (2). Ou seja, o
deslocamento de foco externo do Brasil, da Europa para os EUA,
foi algo construído.

Recorro a esse evento ocorrido há mais de cem anos, dado que a
profundidade das transformações que ocorrem hoje no mundo —
políticas, geoeconômicas e tecnológicas — demandam mudanças
de rumo e força de decisão na área externa que não encontram
paralelo no nosso passado recente. Na passagem do século XIX
para o século XX, assistíamos, no plano externo, à emergência de
uma nova potência hegemônica e, internamente, conduzíamos
tardiamente o país para um novo paradigma produtivo, industrial
e assalariado. A política externa de Rio Branco visionariamente
re”etia o conjunto de anseios e demandas que derivavam dessa
dupla transição — de poder internacional e no modo de produção.
Hoje, um século depois, uma dupla transição, de natureza
semelhante, se desenrola a olhos vistos. A China — nova expoente
da Quarta Revolução Industrial — emergiu e se consolida como
nova superpotência global, numa nova economia que tem as
tecnologias digitais nos campos de automação, controle e
informação como pilares estruturantes. Nós, no Brasil, de novo
tardiamente, buscamos conduzir o país para esse paradigma
produtivo da Indústria 4.0.

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Terá o Brasil, nas últimas décadas, desenvolvido política externa
condizente com essa nova realidade internacional e tecnológica?
Em outras palavras, terá a diplomacia brasileira desenvolvido ação
externa que, a exemplo do que aconteceu no começo do século
passado, promoveu a inserção internacional do país em sintonia
com as evoluções no campo político e tecnológico?
Certamente não.

Antecedentes e diagnóstico do que !zemos: uma política
externa “insu!ciente”
Começo de frente para trás, da administração atual para as
anteriores. Vivemos hoje uma postura política externa que
sistematicamente agride a China. Qual seria a lógica de interesse
nacional de ofender a superpotência política, geoeconômica e
tecnológica emergente, que, ademais disso, é nosso principal
parceiro comercial? Tal postura constitui contrassenso óbvio e erro
primário de estratégia, além de grotesco em sua forma. O
primarismo !ca mais evidente quando se registra que a atual
política ostensivamente antichinesa é feita de modo personalista,
como forma de demonstração de lealdade pessoal (e de
subordinação) ao presidente americano, que, como acabamos de
ver, não foi reconduzido à Casa Branca.

Nos governos anteriores — Temer, Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor
e Sarney — que mais ou menos coincidem com as décadas de
início e “orescimento do notável crescimento da China derivado
das reformas econômicas da era Deng —, nossa diplomacia atuou
de forma correta no relacionamento com o país asiático, dentro
dos valores e princípios que norteavam a política externa brasileira.
Como pano de fundo para debate, podemos dizer que o diálogo
do Brasil com a China e com a Ásia nesse arco temporal que vai de
Sarney a Temer foi construtivo, mas insu!ciente. Sim, insu!ciente
no sentido de que não antecipou o deslocamento de poder para a
Ásia, de tal forma a gerar ações relevantes, estratégicas e
concretas. Também insu!ciente no sentido de que o diálogo não
alterou substancial e estruturalmente, pela via diplomática

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bilateral, o curso natural de nossa realidade econômica, social e de
desenvolvimento tecnológico.
Se concordamos com essa tese da insu!ciência, cabe indagar qual
seria então, no plano da diplomacia geográ!ca, uma política
externa su!ciente e adequada para o contexto atual. Critério mais
óbvio: a melhor política externa é aquela que alavanca o processo
de desenvolvimento econômico e social dos países envolvidos, a
partir de processos de trocas que sejam complementares,
mutuamente bené!cas e sustentáveis no tempo. Qual seria então
essa política?
Hipóteses
No abstrato, as alternativas não são muitas. No contexto da
rivalidade sino-americana que se aprofunda, caberia em primeiro
lugar uma escolha simplista “por um dos lados” no contexto de
uma suposta nova bipolaridade. Para os que enxergam uma
geometria de poder menos bipolar e mais tripolar, a Europa como
pilar de poder mundial — fortalecida pelo processo de integração
da União Europeia e detentora de economia com grau superior de
complementaridade ao Brasil em relação aos EUA — constitui
opção de prioridade relacional.
Aos que entendem o agrupamento Brics como alternativa de
coligação viável, uma política calcada no fortalecimento do bloco
emerge também como vetor de peso importante. Variante dessa
perspectiva seria uma aposta em parceria mais estruturante que
priorize fortemente a Índia, país visto por muitos como “a próxima
China”, em termos de tamanho de mercado, desempenho
econômico e inovação tecnológica. A Rússia, reerguida depois do
colapso de 1991, permanece como ator relevante, no plano militar,
energético e tecnológico, domínio em que o país se reinventou
como potência (3).
Aos autonomistas, restariam alternativas voltadas para conjunto
de políticas que privilegiassem as relações no Sul global ou, ainda,
iniciativas de corte sub-regional na América do Sul. E, claro, aos

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mais indecisos, aqueles adeptos do “somos amigos de todos”,
teríamos mesclas difusas desses vetores, que se misturariam com
todos os temas importantes da agenda multilateral que, por razão
de espaço, serão deixados de lado neste texto: meio ambiente,
comércio internacional, não proliferação e desarmamento etc.
Ao re”etirmos mais concretamente, nossas escolhas devem estar
condicionadas à realidade interna brasileira — nossas a”ições,
angústias, limitações, premências e necessidades coletivas
cronicamente não atendidas. Do lado positivo, o que temos a
oferecer, competitivamente no plano material, como realidade
presente e promessa de futuro.
Num patamar de ainda maior realismo, temos de lembrar do velho
ditado: “it takes two to tango”. De nada nos adianta idealizar novas
associações e geometrias de poder se, numa parceria imaginada,
não pudermos contar com a conjunção de duas vontades.
Portanto, encontrar parceiros que nos enxerguem como nação e
Estado de valor é condição essencial para qualquer diplomacia
estruturante.

— Foto: Klara Yang

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Critérios para uma nova política
No momento histórico em que nos encontramos, um ponto de
partida inevitável para pensarmos nossa ação externa é o risco da
irrelevância. Esse Brasil que apresenta há quatro décadas curva de
produtividade do trabalho basicamente horizontal, taxas anêmicas
de crescimento, baixa contribuição aos processos de inovação,
desempenho educacional medíocre, reduzida poupança interna e
incapacidade sistêmica de conceber e executar grandes projetos
de infraestrutura tende inexoravelmente à insigni!cância e
marginalização sistêmica.
Diante de um contexto calamitoso como esse, não temos outro
remédio que não seja tomar o fator tempo como variável
fundamental para as nossas decisões diplomáticas. Em outras
palavras, o sentido de urgência deve ser elemento central na
construção de nossa política externa. Claro que há um enorme
dever de casa no plano doméstico a ser realizado, mas não
podemos deixar de perguntar qual política externa que — em
prazos mais curtos — pode nos ajudar a sair desse pântano em
que nos metemos (4).
Um segundo fator que deve ser levado em consideração é o
estágio tecnológico em que o Brasil se encontra, no contexto da
transição de paradigma produtivo pela qual o mundo atravessa.
Os núcleos dinâmicos da economia mundial caminham
irremissivelmente para um quadro de ubiquidade digital,
caracterizado pela constituição de novos ecossistemas nos quais a
arquitetura de redes de alta velocidade, robótica, big data, internet
das coisas e inteligência arti!cial dominam as infraestruturas
urbanas, o ambiente de trabalho e de convívio social. A realização
tardia desse ambiente digital nos condena a atraso ainda maior.
Portanto, nossas escolhas devem buscar parcerias que nos
alavanquem para um “leapfrog” em direção à Indústria 4.0.

Entre outros tantos aspectos que merecem ser suscitados, limito-
me a sublinhar por !m um terceiro fator importante que deriva da

necessidade brasileira urgente por investimentos, notadamente

nos segmentos de infraestrutura geral e urbana, das novas
indústrias e de energia limpa, que con!guram o ambiente virtual e
a logística física da nova economia. Como mencionado antes, o
Brasil apresenta taxas internas de poupança baixas e declinantes,
o que compromete nossa capacidade de inversão, limita o
potencial de crescimento e nos coloca numa posição de demanda
por investimentos estrangeiros diretos (5). Assim, no esforço de
inserção internacional, a capacidade de investimento de potenciais
parceiros — notadamente em segmentos de infraestrutura digital
e física multimodal, pilares da nova economia — deve ser avaliada
como requisito central.
Cenários plausíveis
Entre os diferentes cenários delineados acima, destaco dois. Talvez
sejam esses que se a!guram mais plausíveis e apresentam maior
interesse para nós. Talvez seja possível, nesses dois cenários, que
tenhamos chances de buscar, pela via da negociação, com boa
dose de pragmatismo e à luz das lições da história, a melhor
alternativa de inserção do Brasil no mundo. Talvez seja num
desses dois cenários que a con!guração de poder mundial
possibilite uma inserção internacional do Brasil que efetivamente
nos conduza para o ambiente da nova economia.
Claro, trata-se de exercício de inegável simpli!cação de realidades
complexas. As relações internacionais não se situam no campo das
ciências naturais, domínio em que podemos realizar experimentos
controlados. Trato aqui de trazer para primeiro plano esses dois
caminhos possíveis, deixando em plano secundário diversos
outros cenários e variáveis que deliberadamente permanecerão na
sombra, para que possamos examinar, explorar e, quem sabe,
induzir hipótese especí!ca de inserção do Brasil na ordem
internacional que se consolida.
A opção convencional
O primeiro cenário conta com o peso da história e a força do
determinismo geográ!co. Nele, buscaríamos uma aliança com os

EUA, em contexto marcado pelo regionalismo crescente e/ou pelo
acirramento do confronto sino-americano. Nesse cenário cada vez
mais enrijecido pela polarização, os contendores principais
admitiriam, tal como na Guerra Fria, que potências médias e
secundárias se alinhassem exclusivamente a uma ou outra
superpotência. Em tal cenário, caso radicalizado, seríamos instados
a participar de bloco regional de natureza política e econômica e a
aderir a regimes regulatórios que, de um lado, serviriam para
integrar as duas economias (e outras da região) e, de outro,
di!cultariam e discriminariam, de forma mais ou menos velada,
direta ou indireta, o relacionamento
econômico/tecnológico/comercial com o polo oposto de poder
principal.
Se adotássemos esse caminho, aceitaríamos tacitamente (decerto
de forma mais pragmática e inteligente do que se faz na presente
administração) o ressurgimento das duas faces da Doutrina
Monroe — hegemônico/ofensiva e paternalista/defensiva —,
implícita no seu bordão de!nidor, “A América para os americanos”.
Em certa medida, esse caminho poderia con!gurar uma resposta
das Américas à recente iniciativa do Regional Comprehensive
Economic Partnership — a RCEP, que reúne 15 países da Ásia. Num
eventual cenário em que a presença americana no regionalismo do
Pací!co se enfraqueça, dada a retirada dos EUA da Parceria
Transpací!ca (TPP), a integração interamericana pode ganhar
relevância.

Vale aqui sublinhar que uma tal opção pró-EUA não guardaria
qualquer semelhança com a política pró-Trump hoje em vigor e
agora transformada em cadáver insepulto. Se quisermos manter
uma relação forte e produtiva com os EUA, teremos
imperativamente, de construir elevado diálogo com a China. A
necessidade de competir com os chineses será a única maneira de
fazer com que os EUA estendam concessões reais ao Brasil. Se
queimamos nossas pontes com a China, como quer o chamado
“bolsotrumpismo”, Washington nos tomaria por certos, “for
granted”, sem atribuir valor ao nosso peso especí!co.

Pesaria em favor dessa escolha (até onde tivermos a capacidade e
a possibilidade de escolher nossos caminhos): (i) visões de mundo
nos dois países que, apesar de diferentes, são derivadas de uma
mesma matriz ocidental judaico-cristã grego-romana, (ii)
proximidade geográ!ca relativa, (iii) parentesco dos idiomas que
falamos, ambos de origem indo-europeia e baseados na escrita em
alfabeto romano, (iv) volume de comércio substancial, (v) histórico
signi!cativo de trocas no plano das sociedades, (vi) “establishment”
estadunidense no campo estratégico/militar/tecnológico que
enxerga no Brasil, embora de forma não unânime, algum valor
geoestratégico no ordenamento mundial, mesmo que secundário,
(vii) o valor dos EUA como polo de inovação tecnológico e de
produção de conhecimento.
Em contrário a essas vantagens presumidas, contrapõem-se (a) a
baixa taxa de poupança interna que historicamente prevalece nos
EUA, o que em tese impossibilita o “uxo de investimento na escala
que necessitamos, (b) pauta exportadora frontalmente
concorrente, (c) remotas possibilidades de abertura comercial nos
EUA que pudesse nos bene!ciar, (d) a baixa prioridade
tradicionalmente atribuída ao Brasil como parceiro estratégico ou,
talvez em outros termos, o papel calibradamente limitado que os
americanos conferem ao Brasil (6).

Outro caminho

A alternativa seria a construção de parceria estratégica com a
China, em patamar de relacionamento diferenciado e sem
precedentes. Em desfavor desse cenário, incidiriam fatores críticos
como (A) o desconhecimento recíproco que prevalece nas duas
sociedades, agravado pela distância histórico-cultural, linguística,
geográ!ca e político-jurídico-normativa que nos separa; (B) a
ausência no Brasil de massa crítica sobre a China no mundo
empresarial, acadêmico e na sociedade em geral; (C) a inexistência
nos quadros diplomáticos do Itamaraty de um corpo estável e
especializado em Ásia em geral e em China em particular, com
formação especí!ca em língua, cultura e economia política. A

propósito, como indicador desse panorama, basta lembrar que a
cada ano cerca de 20 mil estudantes brasileiros ingressam em
instituições de ensino dos EUA, enquanto que o “uxo anual
estudantil brasileiro na China não passa de dois dígitos (7).
Entre os fatores favoráveis a parceria com a China vale citar (1) a
capacidade política chinesa de mobilização de agentes econômicos
na direção de políticas estratégicas (dentro e fora do país), (2) o
poder governamental chinês de direcionar investimento externo
em setores de infraestrutura, (3) a consolidação da China como
polo de inovação e de provimento de soluções tecnológicas de
interesse estratégico para o Brasil, (4) taxas elevadas de poupança,
(5) a grande e crescente demanda chinesa por produtos de nossa
pauta exportadora, notadamente produtos agropecuários, (6) o
interesse da China no setor energético brasileiro, (7) a condição de
país que mais investe em sustentabilidade, energias renováveis,
que incluiu em sua constituição o desa!o de se tornar “uma
civilização ecológica”.
Uma nova diplomacia triangular?
A partir das variáveis acima listadas, e entre tantas outras que o
leitor certamente poderá acrescentar, podemos especular
livremente sobre qual cenário melhor nos atende. No entanto, de
nada nos valerá esse esforço especulativo se não nos lembrarmos
que parcela decisiva dessa escolha não se encontra nas nossas
mãos.

Voltando para o argumento do início do texto, nossa escolha
precisa ser construída. Parte considerável das vantagens que
podemos auferir em um ou outro cenário deriva do valor que cada
um dos potenciais parceiros atribui ao Brasil. E o valor com o qual
desejamos ser vistos depende também da capacidade interna de
articular nossas vantagens materiais como elementos de
negociação com cada um dos interlocutores.
Não nos adianta deter grande mercado consumidor e riquezas
dispersas nos diversos setores da economia se essas vantagens

não constituírem uma pauta de negociação articulada pelas forças
da sociedade, de mercado e do governo. E tal habilidade não é algo
dado; trata-se de ação que depende de uma construção, de uma
vontade coletiva que precisa ser ordenada. Nesse sentido, vale
lembrar, a negociação diplomática não se limita a negociações no
front externo; ela implica, necessariamente, a arregimentação e
coordenação de forças internas. A chancelaria brasileira precisa,
portanto, se esse for o nosso desígnio, fortalecer competência
nesse domínio.

Na década de 1970, no contexto da confrontação Leste-Oeste,
EUA-URSS, Washington vislumbrou o valor estratégico que a China
poderia desempenhar no equilíbrio de poder daquela velha ordem
bipolar. Iniciava-se ali, sob as lideranças de Mao Tsé-tung (1893-
1976) e Richard Nixon (1913-1994), a chamada diplomacia
triangular. Pequim distanciava-se de Moscou e alterava assim a
geometria de poder da era bipolar, abrindo as portas para
cooperação com os Estados Unidos que trouxe consequências
profundas para o desenvolvimento econômico da China.
Tal recuo no tempo nos é útil como referência histórica, dado que
a aliança sino-americana, no contexto da antiga rivalidade bipolar
EUA x URSS, desencadeia a profunda, complexa e so!sticada
interdependência econômico-!nanceira e comercial bilateral hoje
em vigor. Nessa janela de oportunidade, derivada das tensões da
Guerra Fria, a China encontra as portas para o seu ingresso na
Terceira Revolução Industrial e abre o caminho da prosperidade
econômica que conhecemos.
Tomando esse evento histórico e decisivo, no qual um país
continental como a China — que se encontrava em situação de
ruína, fome e depauperamento — resgata, em poucas décadas, o
seu lugar no Olimpo das grandes potências, cabe nos

perguntarmos se, ante o acirramento da confrontação sino-
americana, teríamos também, no jogo de nova diplomacia

triangular, condições de possibilidade para construir parceria
internacional que alavanque nosso processo de desenvolvimento,

acelerando a transição do Brasil para o ambiente da Indústria 4.0.
Como sabemos, a fórmula do extraordinário caminho da China
envolveu cinco ingredientes principais. Relaciono-os abaixo como
marco de referência para a construção de possível “entente” com o
mesmo nível de alcance e profundidade .
Primeiro: um conjunto de decisões estratégicas de alto nível. No
caso da reaproximação EUA-China, as iniciativas foram
corroboradas pelos encontros secretos entre Henry Kissinger e
Zhou Enlai (1898-1976), seguidos pelas conversações Nixon-Mao
no início dos anos 1970 e a adoção, na sequência, da política de
portas abertas por Deng Xiaoping (1904-1997) em 1978 (8).
À luz dessas decisões de alto nível, o segundo ingrediente da
trajetória chinesa é representado pela capacidade notável da China
de assegurar ambiente propício para a realização de investimentos
maciços e de atividades de transferência tecnológica dos EUA,
demais países do Ocidente e do Japão (9).
Terceiro: a existência na China de fatores competitivos que eram
interessantes para os EUA — enorme força de trabalho e imenso
mercado consumidor.

Em mesmo nível de importância dos anteriores, o quarto
ingrediente é dado pelo incentivo sistêmico aos EUA para a
reaproximação com a China, que apontava para um reequilíbrio de
forças em favor de Washington no contexto da rivalidade da
Guerra Fria. Dado o seu peso especí!co, a China passava a ser vista
pelos EUA como “the Chinese card”, ator capaz de alterar
fundamentalmente a geometria do poder mundial.
E, !nalmente, constitui o quinto ingrediente a consciência, junto à
elite dirigente da RPC, de que a aproximação aos EUA não deveria
implicar qualquer forma de exclusivismo ou de subordinação
política, consciência essa que conferiu à China ampla liberdade de
ação junto a diversos outros países.

Em termos muito simpli!cados, esses foram os elementos do salto
da China para a Terceira Revolução Industrial, processo que veio
como enorme benefício mútuo para a China e os EUA — e também
para o sistema internacional.
Conclusão
Seria plausível imaginar que o Brasil poderia tornar-se vértice de

uma nova diplomacia triangular no contexto da confrontação sino-
americana em curso? Poderíamos ser alçados à condição de “carta

brasileira”, como ator fundamental no tabuleiro da confrontação
China-EUA? Hipótese central deste texto, esta será talvez a nossa
única chance de construirmos uma “grand strategy” na cena
internacional que nos apoie estruturalmente no plano doméstico,
em escala de transformação semelhante à que a China
experimentou nas últimas quatro décadas. Mas a construção de
parceria dessa envergadura envolvendo o Brasil — que fosse capaz
a um só tempo de nos ajustar de forma altiva à geometria de
poder mundial e alavancar a transição tecnológica de país com
nossa dimensão territorial e populacional — encontra dois
obstáculos.

Em primeiro lugar, tomando de empréstimo uma clássica
expressão “schopenhaueriana”, não há no Brasil, uma “vontade e
representação” coletiva de um mundo que desejamos alcançar.
Falta-nos, por razões que não cabem neste texto, uma visão e um
desígnio, um destino manifesto. Carecemos não só de uma política
externa, mas também de condições internas — no Estado e na
sociedade — que constituiriam o substrato para sua
implementação no âmbito internacional. Ambas precisam ainda
ser construídas. Os componentes materiais para a construção
estão presentes: somos uma superpotência agrícola,
superpotência ambiental, superpotência energética e um mercado
consumidor de 220 milhões de pessoas, 87% das quais habitantes
de espaços urbanos, campos abertos para a experimentação e a
construção da ubiquidade digital da nova economia. Falta-nos,
talvez, “simplesmente”, a determinação coletiva, política, uma visão
estratégica de fazer desse patrimônio um ativo interno que nos

articule com força na ordem internacional.
Em segundo lugar, neste cenário bipolar, nem os EUA nem a China,
até o momento, enxergam qualquer valor estratégico que o Brasil
possa apresentar como parceiro sério e con!ável, com potencial
de alavancagem de interesses geopolíticos e geoeconômicos.
Certamente por nossa própria culpa, pela falta de compromisso
coletivo transformador, pela mesquinhez e pela ausência de massa
crítica e iluminada em nossa elite, pelo baixo nível educacional da
população em geral, fomos incapazes de articular ativos que, na
ausência de uma vontade coletiva, atendem exclusivamente
interesses particularistas situados à margem da sociedade e dos
governos.
Caminhando para o !m, volto a sublinhar que esses dois cenários
são aqui tomados como principais, tanto por uma questão
metodológica quanto pela inconfessável angústia do autor, que de
alguma forma busca enxergar na complexa dinâmica internacional
alguma clareza que nos abrisse a oportunidade, em horizonte
temporal mais próximo, de enfrentar, com o apoio da diplomacia,
as tantas mazelas sociais que nos cercam e o nosso
subdesempenho econômico. Evidentemente, as tais hipóteses não
são excludentes de outros arranjos que a dinâmica internacional
venha nos propiciar em prazos eventualmente mais longos.
A cautela sempre dirá que, mesmo diante de re”exões que nos
apontem para cenários mais circunscritos, a ação diplomática deve
sempre se pautar por política externa de arquitetura aberta,
pragmática e ecumênica, tendo como fundamento os interesses
nacionais permanentes. Por exemplo, a Índia já é hoje a terceira
maior economia do mundo pelo critério de paridade de compra e
certamente poderia ser objeto de parceria estratégica para o Brasil,
conforme indicado anteriormente, em função da promessa que
representa no plano do desenvolvimento econômico e tecnológico,
além de seu imenso e crescente mercado consumidor. O Japão,
país com que manteve relação migratória importante e que no
passado foi relevante !nanciador de projetos de infraestrutura

brasileiro, poderia resgatar com vigor o seu interesse pelo país. Da
mesma forma, não podemos esquecer Euclides da Cunha (1866-
1909), para quem a geogra!a pré-con!gura a história. Nesse
quadro, não poderemos abrir mão das nossas possibilidades de
articulação de arranjo político na América do Sul e na África
Ocidental, regiões que perfazem uma população de mais de 1
bilhão de pessoas.
Mas ao mesmo tempo não podemos descurar da hipótese de que,
em função do nosso peso especí!co e das atratividades nos
domínios acima citados (agropecuária, bioeconomia, energético e
infraestrutura urbana), possamos construir uma alta estratégia,
com dinâmica favorável aos nossos interesses, a partir de nova
diplomacia triangular derivada, desta feita, da rivalidade entre
China e EUA.

O que fazer? Que expectativa realista podemos ter? No plano
externo, cabe a nós, sistematicamente, sondar e provocar pelos
canais institucionais, em Washington e em Pequim, as condições
de possibilidade para a construção da parceria que melhor nos
atenda no desa!o de encontrar com urgência, a partir de salto
tecnológico, o nosso caminho de prosperidade e equidade. Com
habilidade, devemos seguir uma coreogra!a inteligente,
navegando entre as duas potências, sem jamais nos
aproximarmos ou distanciarmos excessivamente de um e de outro
potencial parceiro, ao menos num primeiro momento, até que
uma fórmula mais profunda de enlaçamento e intercâmbio reais
sejam vislumbrados (10).
Entre as possibilidades indicadas, minha preferência analítica
pessoal transpira nos parágrafos acima. Mas os contornos de
parcerias de tal estatura não podem ser derivados apenas de uma
vontade analítico-especulativa. Dependem, sobretudo, de trabalho
e articulação político-diplomática que, tristemente, estão ausentes
em nosso horizonte. Se nenhuma delas for viável agora, que ao
menos sejamos capazes de, internamente, construir as condições
de contorno para um futuro melhor. Como nos lembra Rubens

Ricupero, referência sempre central do pensamento brasileiro, não
há exemplo histórico de país que tenha se desenvolvido apenas ou
principalmente por meio da política externa. Esta, por mais
brilhante que seja, é sempre necessariamente ancilar. O impulso
decisivo tem sempre de vir de dentro.
Philip Yang é fundador do Instituto Urbem e Senior Fellow do
Cebri – Centro Brasileiro de Relações Internacionais
P.S. No contexto pós-Trump, marcado pela exacerbada
animosidade entre Biden e Bolsonaro, podemos assistir a uma
in”exão dada pelas indicações de aproximação pessoal do
atual presidente brasileiro ao presidente Putin. Tal
movimento apresenta potencial de provocar importantes
implicações na nossa política externa e introduzir
complexidade ainda maior. Cabe lembrar que o atual sistema
russo não é nem socialista nem capitalista, apresenta visão
militarista e forte presença do Estado, tanto ao gosto do
dirigente brasileiro. Nesse cenário, a Índia, sob o populismo
nacionalista e conservador de Modi, também entraria como
saída para minimizar o isolamento do Brasil, que hoje se
confronta de maneira veemente tanto com os EUA quanto
com a China. Não teríamos mais os Brics, mas sim o RIB,
criando uma nova costela nas relações internacionais.
1. À época, a chancelaria brasileira encontrava-se em período
formativo como órgão de Estado. A mudança de orientação da
política externa foi concebida e implementada pelo Barão do Rio
Branco, com apoio de Joaquim Nabuco (1849-1910) e Rui Barbosa
(1849-1923).

2. Vale resgatar a contribuição de Joaquim Nabuco para a mudança
do centro de gravidade da política externa brasileira no texto de
Leslie Bethell, intitulado “Nabuco e o Brasil entre Europa, EUA e
América Latina” (Novos Estudos – Cebrap no 88 São Paulo Dec.
2010)

*Diretor do Instituto Urbem

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