São Paulo pode ditar a nova política brasileira

Roberto Amaral*
Comentaristas da política do dia a dia, anunciados como expertos em análises de campanhas eleitorais, e por isso mesmo muito presentes nos grandes meios, redescobriram a “matemática frívola” a que se referia Roberto Campos nos seus tempos  de mago, para, a partir de números, percentagens e cálculos engenhosos, modas médias e medianas, demonstrar vitórias e derrotadas políticas somando laranja com banana. Assim, medem o desempenho das diversas siglas (mediante escolhas não aleatórias) segundo o percentual  de prefeituras conquistadas ou vereadores eleitos, e a partir desses números apurados estabelecem o ranking partidário brasileiro, e anunciam, em cima deles,  os vários matizes pelos quais passará a ser desenhado o corpo eleitoral, como se o amontoado de siglas sem caráter, que é o nosso sistema partidário,  anunciasse algum sentido político ou ideológico.
Ora, o universo com o qual trabalham esses alquimistas compreende 5.568 municípios (Macapá e o Distrito Federal não participaram da rodada do último dia 15),  tão distintos entre si como água e óleo, pois reúne no mesmo balaio, por exemplo, a capital paulista, com seus 8.886.325 eleitores, e, Borá, ainda em São Paulo, com 1.061 eleitores. Esse município, por sinal,  elegeu seu prefeito com 501 votos  e o vereador mais bem votado com 70 sufrágios,  enquanto  na cidade de São Paulo o líder Eduardo Suplicy retorna à Câmara Municipal sobraçando  165.552 votos.
De outra parte, que significa estimar o desempenho dessa ou daquela sigla, quando temos partidos, como o PSB, que concilia em sua direção figuras  tão díspares entre si como o ex-governador Márcio França, de direita, e a ex-prefeita de Salvador, Lídice da Mata,  conhecida e bem testada liderança de esquerda?
Segundo o modelo desses comentaristas, o vereador Eduardo Suplicy (o mais bem votado em São Paulo e no Brasil) e seu colega de Borá pertencem ao mesmo conjunto, e assim, são somados. São, apenas, dois vereadores. Um número.  Se nos voltarmos para outras estatísticas, a dos prefeitos eleitos, a deformação de novo saltará à vista. São igualmente prefeitos – portanto podendo ser igualmente somados, divididos e transformados em percentuais estatísticos – ao mesmo tempo, o prefeito eleito de Granjeiro, no Ceará, cidade com 5.265 eleitores,  e o prefeito a ser eleito no próximo dia 29 em Fortaleza, com 1.782.925 eleitores. Ou seja, os “especialistas” somam alhos com bugalhos, o que dá boa rima, mas não é uma solução.
Mesmo quando esse universo de municípios é reduzido às capitais, o resultado é,  novamente,  de importância zero, pois repete a novela do doceiro que aprendera a trabalhar com unidades em sua química culinária, e, assim, somava uma goiaba com um mamão, e podia provar que juntara apenas duas frutas. A aritmética frívola produz uma estatística inútil. Entre as capitais brasileiras temos, por exemplo, Rio de Janeiro com 4.898.040 eleitores e Palmas com 41.993 eleitores. Com a metodologia que soma mamão e goiaba, considerando 26 capitais (incluindo agora Macapá e mantendo fora o Distrito Federal, que não elege nem prefeito nem vereadores), podem os “especialistas” afirmar que o partido A, por haver  abocanhado cinco prefeituras, é o grande vencedor, comandando  cerca de 20% das capitais; face a face, faz-se perdedor o partido B, que, por haver conquistado apenas duas prefeituras, controlará menos de 10% das capitais. Ocorre, porém, que os números, na hipótese, enganam, pois,  de novo uma hipótese de trabalho, se  as prefeituras ocupadas  pelo partido A forem Palmas, Macapá, Rio Branco, Boa Vista e  Porto Velho (que agregam no total 1.280.423 eleitores), e as duas capitais  conquistadas pelo partido B, podendo  ser  Rio de Janeiro e Recife, somam, só elas,  6.055.364 eleitores, ademais de representarem dois eminentes polos políticos e econômicos brasileiros.  Qual o resultado mais  relevante em termos de concentração de poder?
A metodologia aritmética, por fim, não dispõe de sismógrafos, para, por exemplo, medir a potência política que em si significou a ida de Guilherme Boulos para o segundo turno paulistano, e muito menos saberá identificar a diferença nada sutil entre as candidaturas de Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB) no Recife, que deve retornar ao campo  da esquerda, nada obstante os equívocos do PCdoB. Assim se revela inútil  a pura arquitetura dos números, se pretendemos tomar o pulso do processo político-ideológico.
Noves fora as elucubrações aritméticas, a política nos diz que o primeiro turno conformou (independentemente do desenho partidário) três blocos: a grande esquerda (compreendendo também a centro-esquerda), a direita (desapartada do bolsonarismo) e a extrema-direita (cuja melhor ilustração é o bolsonarismo). O chamado “centrão”, que não tem autonomia ideológica, é uma fração de negócios,  importante sem dúvida, da direita, mas nada além disso. É, fundamentalmente, sua milícia congressual, alimentada pelas tetas da república. O centro, como conhecido até as eleições de 2018, com elas sucumbiu, e ainda não ressuscitou, nada obstante o ingente esforço de manipulação da grande imprensa.
Apurado e assimilado o primeiro turno, após as eleições de Belo Horizonte e Salvador (trágicas para as esquerdas, particularmente para o PT), o que definirá a real ossatura dos partidos e os horizontes do processo político, daqui em diante, são as eleições em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Fortaleza e Belém, que reúnem 18.816.243 eleitores os quais (dados de 2017) representam, mais de 20% do PIB nacional. O que seremos politicamente, portanto, só estará escrito a partir do dia 29, com esses resultados, mas, principalmente, com o resultado das eleições paulistanas, decisivas para o futuro imediato da esquerda e das forças democráticas de um modo geral.
Ouso afirmar que o fato político mais importante desde a posse do capitão desvairado foi a ida de Guilherme Boulos e Luiza Erundina (PSOL) ao segundo turno em São Paulo. Não se trata, tão-só, de apreciar a vitória dessa dupla inexcedível, mas de compreender a resolução pedagógica do eleitorado da mais importante capital do país, realizando, nas ruas e nas urnas, a grande frente política democrática que as direções partidárias, burocratizadas, não souberam levar a cabo.
Qualquer que seja o pronunciamento das urnas, suas consequências falarão para além dos números do pleito em si, pelo seu forte significado simbólico e estratégico. Mais do que assinalar o réquiem tardio  do hegemonismo das grandes siglas, já de si um grande salto, põe de manifesto, para surpresa das burocracias, a capacidade  auto-organizativa de nosso povo.
O fato sociológico-político já se deu, e vai produzir os desdobramentos que a ação coletiva e as contingências construirão. Mas ele pode ir muito adiante, porque, se o bom desempenho de Boulos já é uma conquista dada, a eleição no dia 30 é uma possibilidade que não pode ser descartada; ao contrário: nela devemos investir com todas as forças.
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O segundo turno- Além da candidatura Boulos-Erundina (PSOL), as forças populares estão voltadas para as eleições de Manuela D´Ávila (PCdoB) em Porto Alegre, José Coser (PT) em Vitória, Marília Arraes (PT) em Recife, José Sarto (PDT) em Fortaleza, e Edmilson Rodrigues (PSOL) em Belém. O resultado ditará os novos rumos da esquerda partidária. Quem tiver contatos nessas cidades…
O caos carioca – Mais uma vez, a incompetência das direções dos partidos de esquerda e centro-esquerda do Rio de Janeiro, desta feita com a ajuda do personalismo do deputado Marcelo Freixo, impõe ao eleitorado carioca a miserável “escolha de Sofia”: a opção entre o lixo e o chorume. É preciso reconhecer, porém, que o “bispo” ainda prefeito é uma figura abjeta, moralmente asquerosa, intelectualmente torpe. Trata-se de um mentiroso incontrolável, por deformação congênita de caráter.  Saturadamente desonesto, humilha a condição humana. E, afora tudo o mais, compõe, com o capitão Guimarães, criminoso fardado (disputando o  segundo turno em Fortaleza), a dupla de resistência do bolsonarismo nessas eleições. Derrota-lo é, pois,  a nossa contingência. Faz parte da luta contra o capitão.

*Roberto Amaral é escritor, ex-ministro de Ciência e Tecnologia e presidente do IBEP

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