Painel de notícias

  1. Home
  2. Artigo
  3. Vergonha alheia

Vergonha alheia

Eric Nepomuceno*
Existe em castelhano uma expressão que é especialmente útil e, muitas vezes, oportuna: “Vergüenza ajena”. Ou seja, vergonha alheia.
Se aplica sempre que alguém passa por tamanha vergonha que você acaba sentindo como sua.
 
É exatamente o que senti vendo o vídeo, postado por Jeferson Miola e reproduzido aqui no 247, em que o ministro venezuelano de Relações Exteriores, Jorge Arreaza, manda um recado ao nosso ministro de Aberrações Exteriores, um ser patético chamado Eduardo Araújo.  
Confesso que, por estrita prescrição médica nestes tempos de confinamento e angústia, não acompanho nenhum pronunciamento de Araújo e de alguns outros integrantes do governo do Aprendiz de Genocida.
 
E antes de continuar, quero deixar claro que minha visão sobre a Venezuela de hoje, e que já me criou esbarrões e até problemas com amigos de toda a vida, é crítica.
Entendo, é evidente, que o que os Estados Unidos, e ainda mais com Donald Trump, fizeram e fazem com a Venezuela é crime. E que esse crime tem ainda a cumplicidade de vários países mundo afora, europeus em especial. O Brasil de Jair Messias queria ainda mais, e tudo indica que foi contido pelos fardados da ativa.
 
Mas entendo também que depois da partida de Hugo Chávez, e talvez por falta de opções para enfrentar e sobreviver à pressão externa, o governo de Nicolás Maduro perdeu-se em meandros que não quero mencionar agora.
 
Porque agora o tema é a humilhação suprema, a “vergüenza ajena”, a que se submeteu Eduardo Araújo, que ao longo da vida não passou da superfície da uma lama medíocre.
 
A fala pausada e serena de Arreaza – como nunca antes ouvi uma intervenção ou pronunciamento dele, não sei se é a tônica – expôs ao mundo até que ponto chega a bizarrice bestial de Araújo e dos que efetivamente o dirigem e controlam, a começar por um guri que se diz “discípulo” do astrólogo autonomeado filósofo que, por enquanto, se homizia no estado norte-americano da Virginia.
 
Aliás, convém lembrar que tal figura, acossada pelo fisco dos Estados Unidos e pela multa imposta a ele pela Justiça brasileira, não se sabe até quando conseguirá ficar por lá disparando disparates. 
 
Mas, seja como for, o teleguiado ministro brasileiro de Aberrações Exteriores passou por um vexame olímpico. 
 
Vi duas, três vezes, o breve pronunciamento do venezuelano postado, repito, por Jeferson Miola, e morri de vergonha.
 
De “vergüenza ajena”. 
 
E o que mais me sensibilizou em sua fala foi a parte em que ele, o venezuelano, depois de recomendar um chazinho tranquilizante para a Besta Brasileira, seu par, se solidariza com o corpo de funcionários de carreira do Itamaraty, que são obrigados a se submeter às bestialidades tanto do chanceler como do tal assessor especial do Aprendiz de Genocida, que obedece diretamente ao astrólogo que se diz filósofo.
 
Já não conheço quase ninguém que esteja na ativa do Itamaraty. Mas tenho boas relações com gerações anteriores. 
 
E devo dizer que até nos tempos da ditadura, soube respeitar a atuação do ministério brasileiro de Relações – e não Aberrações – exteriores.
 
Será que Eduardo Araújo e o tal discípulo do astrólogo ouviram falar, ou têm noção, de quem foi Azeredo da Silveira (que me detestava e barrou minha presença nas coletivas em Buenos Aires quando era embaixador, mas foi um tremendo chanceler)? 
 
Ou Ramiro Saraiva Guerreiro, ministro no final da ditadura? 
 
Terá noção de quem foi o embaixador Sebastião do Rego Barros, e lista é longa, longa, longa?
 
Vergonha, vergonha, vergonha alheia.
 
 Um dia, isso tudo vai passar. 
 
A questão é: e o preço disso tudo, de tantas bestialidades, tantas humilhações, tanto isolamento, tanta vergonha alheia? 
 
Como pagar esse preço?
*É jornalista e escritor.
Veja outras notícias
Artigo
Menu