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VOVÔ VIU A UVA

Adhemar Bahadian*

Esta semana Bolsonaro tem boas razões para alegrar-se. Eleito um dos cem homens mais influentes pela revista Time, guindado a quarenta por cento de aprovação numa pesquisa do DataFolha e, finalmente, com um discurso na abertura da Assembléia-Geral das Nações Unidas em grande sintonia com o de Trump. Não é pouca coisa. Os dados da fortuna parecem rolar em sua direção .
Pouco importa atribuir ou justificar seu alto índice de aprovação como fruto do auxilio emergencial aos milhões de brasileiros desvalidos seja por força da Pandemia seja por razões da história perpétua deste país, como o patrimonialismo ou o elitismo cúpido, ou obviamente pela história recente de um neoliberalismo econômico a aprofundar o fosso entre os que comem e os que morrem de fome.
De qualquer lado, esquerdo, direito, centro ou atrás do goleiro, foi um gol de placa. Tal como um lençol do Pelé no beque e o bate-pronto na última gaveta. Não adianta lembrar o Posto Ipiranga a defender uns míseros trocados , o Congresso Nacional a aumentar o valor para quinhentos reais. O gol foi de quem mandou o caixa pagar no guichê. Não adianta dizer que a idéia foi roubada como a mão santa do argentino. Bola no centro do gramado.

Na ONU, com o privilégio merecido por uma diplomacia brasileira de outros tempos, o Presidente abriu o debate geral com uma retórica com tons de Pirandello do “assim é se lhe parece”, nadou de braçada na mesma piscina surrealista escavada por Trump, quando Brasil e Estados Unidos, bem coreografados, fizeram profissão de fé numa anti diplomacia centrada no requentado nacionalismo pré-segunda guerra mundial. Trump mais explícito no desenho de uma geopolítica imperial. Bolsonaro não muito menos, ao colocar o país no epicentro de uma hipotética campanha
orquestrada pelos suspeitos de sempre, ontem vermelhos, hoje verdes, interessados em destruir o patrimônio nacional.
Surpreende pela coincidência a alusão de ambos a uma cristofobia desconhecida pela maioria dos brasileiros e a revelação pelo Presidente do Brasil de duas características da nacionalidade sendo uma delas o cristianismo num país onde a multiplicidade de religiões e o sincretismo religioso podem ser fartamente comprovados a cada 31 de dezembro nas águas de Copacabana, abençoadas por Yemanjá.
Trump insiste em considerar os Estados Unidos vítima de um globalismo malsão trazido pelo multilateralismo que seu próprio país erigiu nas cinzas da segunda guerra mundial.
Curiosamente, Trump ataca prioritariamente organismos econômicos multilaterais e sequer menciona organismos multilaterais financeiros, como o FMI, e regionais como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento ) onde acaba de atropelar uma tradição ao impor como Presidente um seu compatriota. Nesta artimanha diplomática, foi para o
beleléu uma candidatura brasileira da qual o país gratuitamente abriu mão para acolher os “pedidos" americanos. Como fizemos com as restrições voluntárias em nossas exportações de aço e na redução a zero de nossa
tarifas de importação de etanol dos Estados Unidos. Neste cenário Trump tem toda razão. O multilateralismo é nocivo aos Estados Unidos.

Foi sem dúvida, uma boa semana para Bolsonaro e Trump.
Ambos a terminam com a boa notícia de poderem, em prazo curto aqui, curtíssimo lá, indicar novos juizes das cortes supremas. Para Trump um tijolinho a mais na sua anunciada intenção de levar para a Corte Suprema
um litígio dilacerador para a sociedade americana. O clima de inquietação social com repetidas, senão diárias, e quase sempre letais escaramuças entre a polícia branca e a população negra entrará neste litígio com a mesma
intensidade dos anos 60. Só que com a população mais armada .
Se a semana foi esplêndida para muitos, resta saber se o futuro próximo será benéfico para a Democracia e para o Estado Democrático de Direito. Não creio. Temo que não seja. O autoritarismo talvez nos surpreenda
como o incêndio do “Reichstag”, que em tupi-guarani se traduz como Pantanal.
Na vida de todos nós há um momento a nos acompanhar da infância até a morte. Até hoje me lembro do dia em que li minha primeira frase numa cartilha escolar. Só anos depois compreendi ser uma frase apenas um arranjo sintático. A leitura textual às vezes nos leva a crer que a Capitu descrita por Bentinho merece a mais justa das condenações numa
sociedade patriarcal. Mas a Capitu de José Dias é outra, assim como a Capitu de Escobar é infinitamente diversa. As uvas do avô são as mesmas falsamente descartadas pela raposa invejosa. Saber ler é a arqueologia da mente humana.

A oposição democrática recolocou na vitrola o pior de seu momento e como a Carolina, do Chico Buarque, foi para a janela ver a banda passar.

 

*Diplomata e Conselheiro do IBEP

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